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A gestão do corpo clínico em meio a complexidade do financiamento da saúde

0426 – 19/07/2025

Ref.: Cursos Profissionalizantes em Gestão da Saúde, Geografia Econômica da Saúde no Brasil e Jornada da Gestão em Saúde no Brasil

Tarefa difícil é calibrar o que o médico demanda com o que os sistemas de financiamento nos permitem oferecer !

 

(*) todos os gráficos e ilustrações são partes integrantes do Estudo Geografia Econômica da Saúde no Brasil e do material didático do Programa Cursos Profissionalizantes em Gestão da Saúde, dos cursos da Jornada da Gestão em Saúde e da Escepti

Encerrando um ciclo de aulas do semestre, já “invadindo um pouco” o semestre seguinte, pude ministrar esta semana uma aula de Gestão de Corpo clínico em turma de pós-graduação para o Einstein, a convite da Profa. Glauce Brito, a quem sempre me obrigo a agradecer o convite !

Falar sobre a coisa mais difícil que existe na gestão da saúde: gestão de corpo clínico – não existe nada que chegue perto disso em complexidade e dificuldade, e é fácil justificar a afirmação comentando sobre o contexto.

As matérias ilustradas pela figura já são suficientes para iniciar a discussão do quanto o tema Gestão de Corpo Clínico é importante, em um cenário que sinaliza escassez de profissionais ... especialmente profissionais com formação adequada, que associamos a carga horária maior ou menor que os cursos de medicina possibilitam ao aluno dentro de hospitais, tomando contato diretamente com a prática, que ao contrário de “outras ciências” não é um mero complemento da teoria, e sim o que direciona o aluno a se aprofundar nas teorias.

Quem atua no segmento há algumas décadas como eu vem observando a mudança “absurda” de perfil dos médicos, não somente em relação à especialização:

·         A disponibilidade para o mercado ... agravando a escassez;

·         A motivação para manter “tipos de vínculos” com instituições, que é muito diferente da forma como era no passado ... passado não muito distante, diga-se de passagem ... especialmente na saúde suplementar, mas não exclusivamente em relação a ela – também no SUS.

Atualmente, já introduzindo a discussão, é mais do que necessário ajustar o relacionamento com os médicos aos tipos de vínculos que foram sendo incorporados nos modelos de negócios ... se quiser continuar mantendo relacionamento com eles ... principalmente com os das especialidades mais “carentes de contingente”.

 

 

Falar que o médico é figura importante quando tratamos de saúde “parece chover no molhado”, mas é que boa parte das pessoas, inclusive que trabalham na área da saúde, especialmente os que trabalham na retaguarda assistencial e administrativa, ficam tão entretidas com a rotina que as vezes esquecem.

Os gráficos podem servir para dar um pouco dessa dimensão:

·         O de cima, a quantidade de postos de trabalho ocupados por médicos, e pelos demais profissionais que atuam no segmento. Dos mais de 6 milhões de postos de trabalho (somente os registrados no CNES), mais de 1,6 milhões são ocupados por médicos;

·         O de baixo demonstra a relação entre médicos e demais profissionais assistenciais no SUS e na saúde suplementar;

·         O da direita analisa esta relação do último gráfico com a visão de quantos postos de trabalho cada médico gera para outras profissões – mais de 3 no SUS, 1,6 na saúde suplementar, e no geral 2,5 – ou seja, no geral, para cada posto de trabalho médico são gerados 2,5 postos de trabalho de outras profissões.

E o mais impressionante neste número é que de todas as profissões da área da saúde em que um único profissional pode ocupar mais de um posto de trabalho, os médicos são campeões nisso:

·         É raro um administrador ocupar mais de um posto de trabalho;

·         Mas médico é plantonista aqui e ali, é da especialidade x no serviço A e da especialidade Y no B ... tem médico que carrega “um milhão” de cargos sozinho.

Então, quando pensamos que um médico na saúde suplementar gera 1,6 empregos, se considerarmos que o médico assume em média 2 postos de trabalho, o número na verdade é 3,2 ... considerando que ele assume em média 3 postos de trabalho, o número é 4,8 ... e assim por diante !

Isso posto ...

 

 

Se a gente pedir para qualquer pessoa que atua na gestão da saúde ... pública ou privada ... fonte pagadora, ou serviço de saúde, ou fornecedor de insumos .. construir uma Matriz Canvas da instituição que atua, na infinidade de atores que compõem as cadeias de valores, a figura do médico nunca será esquecida:

·         Podem esquecer até de um tipo de fonte pagadora ... ou de um cliente na cadeia de valores;

·         Podem esquecer de tipos de receitas e de custos ... e de algum recurso-chave importante;

·         Mas no “quadrante” de recursos-chave, é certo que o médico não será esquecido;

·         E ele aparecerá em outros quadrantes dependendo do cenário que a instituição se insere na Geografia Econômica da Saúde em que se enquadra.

Primeiro porque tudo que ocorre na área da saúde é consequência da assistência que um profissional de saúde presta a um paciente, e entre os profissionais de saúde, o médico é protagonista por definir quase 100 % do total de condutas definidas:

·         Especialmente nos procedimentos de maior complexidade ainda, define a conduta, e realiza o procedimento principal;

·         Mesmo nos cenários em que ele é um funcionário iniciante de carreira, “manda prender e manda soltar” se analisarmos o contexto ... se é que me entende !

E, segundo, esta escassez deste precioso recurso, seja na saúde pública, seja na saúde privada, não demonstra nenhum indício que alguma ação venha a modificar efetivamente esta tendência nos próximos “muitos anos”.

Temos menos escassez de médicos do que a escassez de excelentes médicos ... é verdade:

·         É consenso que as novas gerações estão formando proporcionalmente médicos com menor qualidade assistencial do que as gerações anteriores, apesar do aporte de tecnologia ... ou quem sabe até em função dela, não é verdade ?

·         Mesmo o Brasil tendo uma das melhores medicinas do mundo ... e isso é inegável ... mesmo um contingente de médicos que podemos considerar entre os melhores do mundo ... e isso também é inegável ...

·         ... escutamos dos próprios médicos, notadamente no meio acadêmico, que proporcionalmente a qualidade das gerações anteriores era melhor;

·         Neste tópico, é bom ressaltar, que não tenho discernimento para julgar ... não tenho formação assistencial ... o consenso é apenas o que replico naquilo que capto na rotina com o meu círculo de relacionamento profissional, que inclui várias operadoras de planos de saúde e hospitais, inclusive hospitais universitários púbicos e privados.

 

 

Voce pode analisar qualquer cadeia de valores na área da saúde:

·         Pode ser esta da figura que representa a do SUS;

·         Como a da saúde suplementar regulada ... como a da saúde suplementar não regulada;

·         Todas as instituições ... tudo que existe na cadeia de valores ... no fundo existe em função da “exploração comercial” do ato assistencial que o profissional de saúde presta ao paciente.

Exploração comercial aqui não é “termo jocoso”, vamos deixar bem claro:

·         É a tradução de que um ato gera assistencial gera oportunidade de negócios;

·         E cada oportunidade de negócios encadeia outra, em outra dimensão ... e outra ... e outra ...

·         ... a ponto de relacionarmos a consulta médica em ambulatório, um dos atos mais próximos do médico com o paciente ... o ato na essência “fornecedor – cliente” ... ao que desencadeia a existência de, por exemplo, de um CONASS;

·         CONASS exemplifica atos que ocorrem a anos luz de distância direta do paciente ... do cliente ... atos absolutamente necessários, é bom frisar ... o SUS não teria eficiência se não existisse CONASS e a relação médico paciente seria muito prejudicada ... mas exemplifica nesta distância que existe entre o cliente e a instituição CONASS, que está “explorando” a assistência médica prestada ao beneficiário do SUS por parte dos profissionais assistenciais !

 

 

E se o cenário já não fosse complexo só por isso ... a escassez de médicos não tem nada de uniforme pelo território nacional, ou por especialidade ...

·         O gráfico da esquerda demonstra, por exemplo, que o crescimento de oferta de médicos de um grupo de especialidades na saúde suplementar é menor do que no SUS;

·         E o da direita demonstra que a quantidade de médicos per capita pelo Brasil é completamente diferente nas UFs ...

·         ... e pior ainda ...

·         ... é diferente quando relacionamos SUS e saúde suplementar, desenhando mosaicos que mostram que em determinadas UFs a quantidade de médicos per capita SUS é maior que na saúde suplementar, e em outros acontece o inverso !

Na gestão da saúde, meu caro, nada é fácil ... agradeço sempre a Deus ter tido a oportunidade de aprender isso, e de ter me especializado para atuar profissionalmente nisso ... e de continuar aprendendo dia após dia !!!

 

 

Pude então passar para os alunos da pós do Einstein o esquema da figura:

·         A gestão do corpo clínico de um serviço de saúde, em especial de um hospital, pode ser mais ou menos difícil dependendo do quanto o gestor tem clareza do cenário que envolve cada situação específica ...

·         ... e dos parâmetros básicos que deve “meio que colocar em um checklist” para não esquecer de considerar o que é importante, e o que é mais importante no caso específico.

Temos demandas diferentes geradas por atores envolvidos diferentes:

·         Demandas dos próprios médicos, é claro, que pleiteiam a maior remuneração e a melhor condição de trabalho ... médico é um ser humano como outro qualquer, não é verdade ?

·         Demandas dos pacientes ... e vamos lembrar que ele (o paciente) é o cliente na essência, e considera o médico figura muito mais importante que o serviço de saúde quanto mais grave for o seu caso ... quanto mais fidelizado estiver com o médico no seu caso;

·         O cenário do mercado de trabalho em que o serviço de saúde está inserido ... basta lembrar dos mapas da figura anterior para lembrar como isso é importante na gestão dos médicos da situação específica !

·         Demandas da fonte pagadora ... especialmente se estivermos tratando de um cenário de saúde suplementar regulada, em que a operadora geralmente tem opções de demandar o procedimento em outro serviço de saúde, quebrando um eventual vínculo de confiança entre o paciente e aquele médico, e levando o paciente para ser atendido por outro;

·         E as demandas do próprio serviço de saúde, que necessita realizar o procedimento, custear o procedimento, realizar a receita, e obter algum lucro ... senão: não tem como subsistir !

Como experiência, se pude passar alguma coisa interessante sobre o tema para os alunos, foi o de reforçar por diversas vezes que esta gestão, que prioritariamente existe para dimensionar e compor o corpo clínico hospitalar, “late e morde” se a gente não conhece o cachorro”, mas “late e não morde se a gente conhece o cachorro”:

·         Latido é uma figura simbólica de que faça o que fizer, nunca será suficiente para atender todas estas demandas que são, na essência, conflitantes ... extremamente conflitantes ... seja lá o que for que fizer na gestão do corpo clínico, você vai ouvir ... não duvidar disso é um bom começo !

·         Conhecer o cachorro é uma figura simbólica de que o cenário que envolve um serviço de saúde nunca é igual ao outro, e é preciso conhecê-lo ... começar sempre entendendo o cenário e, principalmente, se certificando que seu entendimento do cenário está correto, é o maior trunfo para estruturar a gestão do corpo clínico.

Entender o quanto cada um dos tipos de demanda é mais ou menos significativa no cenário é o que faz a diferença entre “ser mordido” ou não ... e a prática ensina que a mordida neste segmento da gestão da saúde dói ... e como dói !

Consultoria  e  Coaching de Carreira  para gestores na área da saúde privada e pública  www.escepti.com.br

Cursos Profissionalizantes em Gestão da Saúde  para gestores da saúde privada e pública     www.cpgs.net.br

Jornada da Gestão em Saúde de cursos abertos e “in company”  www.jgs.net.br

Lista de milhares de profissionais certificados   www.escepti.com.br/certificados

Conteúdo especializado para gestores da área da saúde privada e pública  www.noticia.net.br

Geografia Econômica da Saúde no Brasil, e seminários temáticos  www.gesb.net.br

Modelos para gestão em saúde (livros gratuitos para download)  www.escepti.com.br

Contato  contato@escepti.com.br

 

Sobre o autor Enio Jorge Salu

CEO da Escepti Consultoria e Treinamento

Histórico Acadêmico

·  Formado em Tecnologia da Informação pela UNESP – Universidade do Estado de São Paulo

·  Pós-graduação em Administração de Serviços de Saúde pela USP – Universidade de São Paulo

·  Especializações em Administração Hospitalar, Epidemiologia Hospitalar e Economia e Custos em Saúde pela FGV – Fundação Getúlio Vargas

·  Professor em Turmas de Pós-graduação na Faculdade Albert Einstein, Fundação Getúlio Vargas, FIA/USP, FUNDACE-FUNPEC/USP, Centro Universitário São Camilo, SENAC, CEEN/PUC-GO e Impacta

·  Coordenador Adjunto do Curso de Pós-graduação em Administração Hospitalar da Fundação Unimed

Histórico Profissional

·  Pesquisador Associado e Membro do Comitê Assessor do GVSaúde – Centro de Estudos em Planejamento e Gestão de Saúde da EAESP da Fundação Getúlio Vargas

·  Membro Efetivo da Federação Brasileira de Administradores Hospitalares

·  CIO do Hospital Sírio Libanês, Diretor Comercial e de Saúde Suplementar do InCor/Fundação Zerbini, e Superintendente da Furukawa

·  Diretor no Conselho de Administração da ASSESPRO-SP – Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação

·  Membro do Comitê Assessor do CATI (Congresso Anual de Tecnologia da Informação) do Centro de Tecnologia de Informação Aplicada da Fundação Getúlio Vargas

·  Associado NCMA – National Contract Management Association

·  Associado SBIS – Sociedade Brasileira de Informática em Saúde

·  Autor de 12 livros pela Editora Manole, Editora Atheneu / FGV e Edições Próprias

·  Gerente de mais de 200 projetos em operadoras de planos de saúde, hospitais, clínicas, centros de diagnósticos, secretarias de saúde e empresas fornecedoras de produtos e serviços para a área da saúde e outros segmentos de mercado