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Impacto do Tarifaço nos Custos Hospitalares e dos Planos de Saúde

0428 – 02/08/2025

Ref.: Cursos Profissionalizantes em Gestão da Saúde, Geografia Econômica da Saúde no Brasil e Jornada da Gestão em Saúde no Brasil

Se tiver reciprocidade para a saúde é um cenário ruim, se não tiver, menos ruim !

 

(*) todos os gráficos e ilustrações são partes integrantes do Estudo Geografia Econômica da Saúde no Brasil e do material didático do Programa Cursos Profissionalizantes em Gestão da Saúde, dos cursos da Jornada da Gestão em Saúde e da Escepti

Não sei se dá para considerar que foi surpresa o capítulo final do “Trumptaço”:

·         Não foi surpresa que o Governo Americano fosse “aliviar” um monte de produtos brasileiros da sobretaxa;

·         As pessoas podem julgar que são inconsequentes, ideológicos, imperialistas, desconectados do mundo ... mas se tem uma coisa que a gente não pode jamais subestimar é que quando se trata de negócios, o pragmatismo daquele povo em não perder dinheiro supera qualquer tipo “adjetivo” que alguém possa atribuir a eles, concordando ou não;

·         Com o “pano de fundo” político, eles estão simplesmente semeando um resultado no curto prazo fantástico ... se no médio e longo prazo esta tática vai se sustentar é outra coisa ... mas no curto prazo é uma “jogada de mestre”!

É só olhar a lista dos produtos brasileiros que não entraram no “tarifaço” ... alguns exemplos:

·         Não taxam o aço, porque usam o aço para vender carro para nós, e inclusive produzir alguns carros americanos aqui para exportar para outros países !

·         Não taxam o telefone com fio, porque é um produto com baixo valor agregado, mas taxam smartfones com receio de que produtos orientais passem a usar o Brasil como porta de entrada para chegar ao mercado americano e competir com os produtos que fabricam lá;

·         Não taxam aviões, porque é muito mais barato comprar aviões aqui no Brasil do que produzir lá onde a mão-de-obra neste segmento é a mais elevada do mundo, e eles são os maiores consumidores do produto no mundo !

Discordando de muitos, a percepção é de que este movimento do grupo dominante dos EUA é muito mais técnico do que político ou ideológico ... como vários eventos recentes deste grupo, fazem coisas com objetividade técnica e colocam como pano de fundo a política e a ideologia. Brasil, Canadá e alguns outros países que podem até não representar muito na balança comercial com o Tio Sam, têm sim uma situação de relacionamento comercial com eles que é vantajosa, e eles devem aproveitar este movimento de ajuste, que é mundial e não “contra nós”, diga-se de passagem, para ajustar algumas coisas.

Para nós da área da saúde, que não exportamos nada para ninguém, e poderíamos, é bom que se diga, não existe impacto na exportação ... brasileiro não vai perder emprego na indústria farmacêutica, se é que me entende:

·         Na área da saúde, a questão é saber que o Brasil vai aplicar a lei de reciprocidade e taxar em 30 % a importação de medicamentos e materiais médicos, odontológicos e hospitalares em geral, já que estes produtos não estão na lista dos isentos da taxação;

·         Se a lei da reciprocidade for aplicada, teremos uma taxação de 50 % sobre estes produtos na importação, mesmo sendo “ridículo” o volume de exportação desses produtos para os EUA;

·         Para a área da saúde é a única questão que resta !

Nesta linha de pensamento ... isso posto ... se houver taxação desses produtos, podemos simular o impacto para a saúde ... e não será nada bom ... diria que varia de coisa ruim a coisa ”assombrosa” dependendo de cada cenário !!

Nessas últimas semanas fui convidado para opinar sobre estudos de impacto do tarifaço nos custos e precificação em serviços e saúde, tipo de convite que me deixa muito honrado e motivado, diga-se de passagem.

Como exportamos “quase zero de saúde”, e poderíamos exportar muito, assunto de vários textos anteriores, o impacto se resume ao que pode acontecer com a reciprocidade, que é aplicação da taxa de importação para os EUA igual a de exportação ... o “toma lá da cá”, que vai fazer com que insumos importados do “Tio Sam”, como medicamentos, materiais hospitalares e outros passem a ser sobretaxados na mesma proporção que nosso suco de laranja, café ...

Não existe algo que a gente possa definir como impacto médio para serviços de saúde, especialmente em hospitais, porque o perfil de insumos que define o custo geral varia muito dependendo do porte, especialidade ou especialidades, requisitos de homologação de materiais e medicamentos, estado da arte da tecnologia ... são muitos parâmetros !

Que haverá impacto, isso não se discute ... o tamanho ... a amplitude do impacto é que pode ser insignificante para alguns serviços de saúde ... como o caso de um consultório médico por exemplo ... razoável ou médio para outros ... como o caso de um consultório odontológico que utiliza parte das órteses e próteses importadas dos EUA ... ou catastrófico ... como o caso de uma clínica que realiza procedimentos estéticos, utiliza insumos prioritariamente importados dos EUA e esses insumos são a maior parcela de custo do produto que entrega.

Em hospitais a variação de cenário de carga de importação de insumos dos EUA é “gigante” ... tem os que usam muito pouco ... e tem os que usam “muito muito” !

O gráfico demonstra a síntese de um desses estudos ... caso real ... que evidentemente não será aqui “nominado”, e para não haver qualquer possibilidade de associação tem um fator fixo aplicado em todos os parâmetros de todos os gráficos ! O fator muda os valores absolutos, mas guarda as proporções dando significado a explanação !

O impacto neste caso é de um aumento de 3,2 % nos custos gerais:

·         Como pode o anúncio de um tarifaço de 50 % na importação de produtos dos EUA gerar 3,2 % ?

·         Vale a pena discorrer sobre a metodologia aplicada para chegar a esta estimativa !

 

 

Primeiro é necessário estratificar o perfil dos custos.

Neste caso temos estes grupos:

·         É importante citar que os grupos variam, e muito, de um serviço de saúde para outro;

·         Não somente em função do tipo ... não somente porque hospital é diferente de centro de diagnóstico ...

·         ... mas também porque um hospital geral é diferente de um especializado ... em um centro de diagnóstico que só realiza exames de laboratório é diferente do que realiza exames de laboratório e de imagem ... e assim por diante !

·         E inclusive pela forma como foi parametrizado o sistema de informação ... uma consultoria de implantação define em um local que 6 grupos são suficientes, e outra poderia definir que 5 ou 7 é que seria adequado no mesmo caso ... os custos são os mesmos, mas a forma como a informação se encontra no sistema de informação varia de acordo com a definição sugerida para a instituição no processo de implantação do sistema.

De qualquer forma é necessário estratificar os grupos para poder identificar em quais o tarifaço vai se refletir !

 

 

Então, em cada grupo, se estima “em quanto” o tarifaço vai se refletir:

·         Pegamos medicamentos, por exemplo, e avaliamos quais são importados dos EUA, porque utilizamos medicamentos importados de vários países e o tarifaço vai impactar somente os importados dos EUA;

·         E nesta lista de medicamentos específica, identificamos quanto 50 % representa em relação ao total de medicamentos;

·         Fazemos isso apurando a média histórica de aquisição de cada item, e calculamos quanto representa aumentar 50 % nestes itens em relação ao total;

·         Neste caso, chegamos a aproximadamente 8 %.

E fazemos isso grupo a grupo !

 

 

Então recalculamos os custos por grupo aplicando as estimativas.

O gráfico demonstra o custo por grupo antes do tarifaço (linhas azuis) e após o tarifaço (linhas laranjas).

Fazendo a soma do antes e do depois, chegamos aqueles montantes do primeiro gráfico ... e a conclusão de que o impacto neste serviço de saúde (neste hospital) será de 3,2 % “no geral”.

Dos estudos que tive a honra de conhecer e opinar ... sempre agradecendo a honra – muito obrigado !!! ... este foi o de menor impacto geral ... e é de um hospital de médio porte não muito focado em algumas especialidades específicas, mas também não classificado como geral “de infinitas especialidades” !

Quanto mais especializado é o serviço de saúde e mais dependente de insumos importados dos EUA, maior é o impacto ... um dos estudos apontou mais de 11 % ... “preocupantíssimo” para manter a viabilidade de qualquer negócio na área da saúde !

 

 

Seja lá qual for o caso, se vier a existir o “bateu levou” do tarifaço nos insumos da área da saúde vai mudar o perfil de custos de uma “enormidade de serviços de saúde”:

·         Neste caso o perfil geral de custos se modificou daquele anterior para este;

·         Em qualquer instituição, a priorização de ações de redução de custos se baseia no perfil de custos;

·         Já que não temos recursos para gerenciar todos os custos com a mesma acuracidade (isso é fato), é claro que priorizamos mitigar os custos mais significativos, e os custos que estão em evolução;

·         Por isso o perfil de custos é fundamental ... para priorizar ações de gestão de custos.

Uma ação pode ser modificar o POP de realização de um procedimento substituindo um insumo importado dos EUA por um outro, porque a análise “custo x benefício” passa a apontar outro resultado quando se utiliza o insumo A ou B em função da variação do preço de aquisição, impactado pelo aumento do imposto de importação.

E por isso a afirmação que o tarifaço vai mudar a gestão de custos, em menor ou em maior escala, em uma parcela “gigante” dos serviços de saúde que  existem.

 

 

Deus me deu discernimento para não confundir política com negócios ... este texto não discute se o tarifaço faz ou não faz sentido ... se “o cara” lá está certo ... se “o cara” aqui está certo.

Este texto discute apenas, uma vez postos o tarifaço, a não inclusão de insumos da área da saúde na “lista dos perdoados” e a “consequente possibilidade de réplica”, o impacto que pode trazer para a área da saúde.

O maior ... o pior ... impacto será “no usuário da saúde” ... naquele que necessita do acesso à saúde ... a população.

O tarifaço, além de aumentar imediatamente o custo nos serviços de saúde:

·         Vai provocar uma forte pressão para que o governo faça um novo reajuste na tabela de preços de medicamentos (CMED da ANVISA ... o popular Brasindice da Saúde Suplementar) ... dos medicamentos que sofrem a influência do tarifaço na importação. Não dá para manter uma tabela desconectada;

·         A mesma pressão de reajuste na tabela de preços de materiais, que se reflete na SIMPRO da Saúde Suplementar;

·         As tabelas de preços naturalmente vão ter que refletir, nos itens importados dos EUA, o aumento do tarifaço !

O reflexo na Saúde Suplementar com isso, todos sabemos:

·         Aumenta a sinistralidade dos planos de saúde;

·         As operadoras repassam os aumentos para quem paga o plano, ou seja, ...

·         ... as pessoas jurídicas que bancam o plano de saúde dos seus funcionários, que podem se movimentar para restringir o acesso para compensar os custos ...

·         ... as pessoas físicas que bancam o seu próprio plano de saúde ... os planos individuais;

·         Resumo: lá na ponta ... no final da cadeia de valores, quem vai sofrer o impacto é o beneficiário de plano de saúde ... o paciente da saúde suplementar.

Isso falando da saúde suplementar regulada ... na não regulada o aumento do preço do insumo “vai direto na veia” de quem paga pelo procedimento do próprio bolso ... é mais fácil de entender e o reflexo é o mesmo ... não é verdade ?

O reflexo no SUS com isso, todos sabemos também:

·         Vamos lembrar que o SUS não paga separadamente nas contas qualquer material descartável, e a maioria absoluta dos medicamentos ... na maioria absoluta dos casos paga o procedimento assumindo que o preço pago pelo procedimento é suficiente para cobrir o custo dos medicamentos e materiais;

·         Então, não se ajusta o sistema reajustando o repasse pago pelos medicamentos e matérias descartáveis, que não existem na SIGTAP ... ajustaria se aumentasse o valor pago pelos procedimentos;

·         Não existe chance do governo fazer isso ... a tabela não sofre reajuste fundamental “desde quando o homem pisou pela primeira vez na Lua”.

·         Haverá, sim, pressão para reajustar as FPOs que regem o repasse aos serviços de saúde, e pressão para reajustar os “repasses complementares” que em boa parte são definidos de forma “discricionária”;

·         Como sabemos que estes reajustes não vão refletir o aumento real dos custos, uma vez que o orçamento do SUS não será majorado em função disso ... o impacto infelizmente será redução de oferta de procedimentos para a população;

·         Ou seja ... lá na ponta ... no final da cadeia de valores ... quem vai sofrer é o beneficiário do SUS com aumento de fila e falta de medicamentos na farmácia popular e na assistência farmacêutica especializada.

Em resumo ... se houver “toma lá dá cá”, o “lá e o cá” na área é o “mesmo lugar” ... quem necessita da assistência à saúde !

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Sobre o autor Enio Jorge Salu

CEO da Escepti Consultoria e Treinamento

Histórico Acadêmico

·  Formado em Tecnologia da Informação pela UNESP – Universidade do Estado de São Paulo

·  Pós-graduação em Administração de Serviços de Saúde pela USP – Universidade de São Paulo

·  Especializações em Administração Hospitalar, Epidemiologia Hospitalar e Economia e Custos em Saúde pela FGV – Fundação Getúlio Vargas

·  Professor em Turmas de Pós-graduação na Faculdade Albert Einstein, Fundação Getúlio Vargas, FIA/USP, FUNDACE-FUNPEC/USP, Centro Universitário São Camilo, SENAC, CEEN/PUC-GO e Impacta

·  Coordenador Adjunto do Curso de Pós-graduação em Administração Hospitalar da Fundação Unimed

Histórico Profissional

·  Pesquisador Associado e Membro do Comitê Assessor do GVSaúde – Centro de Estudos em Planejamento e Gestão de Saúde da EAESP da Fundação Getúlio Vargas

·  Membro Efetivo da Federação Brasileira de Administradores Hospitalares

·  CIO do Hospital Sírio Libanês, Diretor Comercial e de Saúde Suplementar do InCor/Fundação Zerbini, e Superintendente da Furukawa

·  Diretor no Conselho de Administração da ASSESPRO-SP – Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação

·  Membro do Comitê Assessor do CATI (Congresso Anual de Tecnologia da Informação) do Centro de Tecnologia de Informação Aplicada da Fundação Getúlio Vargas

·  Associado NCMA – National Contract Management Association

·  Associado SBIS – Sociedade Brasileira de Informática em Saúde

·  Autor de 12 livros pela Editora Manole, Editora Atheneu / FGV e Edições Próprias

·  Gerente de mais de 200 projetos em operadoras de planos de saúde, hospitais, clínicas, centros de diagnósticos, secretarias de saúde e empresas fornecedoras de produtos e serviços para a área da saúde e outros segmentos de mercado