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Prejuízo de Operadora de Plano de Saúde depende do ponto de vista

0437 – 29/09/2025

Ref.: Cursos Profissionalizantes em Gestão da Saúde, Geografia Econômica da Saúde no Brasil e Jornada da Gestão em Saúde no Brasil

É preciso cautela para avaliar a rentabilidade das operadoras de planos de saúde

 

(*) todos os gráficos e ilustrações são partes integrantes do Estudo Geografia Econômica da Saúde no Brasil e do material didático do Programa Cursos Profissionalizantes em Gestão da Saúde, dos cursos da Jornada da Gestão em Saúde e da Escepti

No último sábado tive mais uma vez o privilégio de ministrar aulas em turma de pós-graduação da Faculdade do Einstein, que sempre tenho a obrigação de agradecer a coordenação das Professoras Glauce Roseane de Almeida Brito e Deise de Carvalho.

Como os temas foram gestão e planejamento em saúde, acho que vale a pena comentar sobre o mercado da saúde suplementar, que esteve tão presente nas discussões nas aulas !

Naturalmente quem trabalha com o que eu trabalho escuta muito que a operadora A está dando “um baita lucro”, que a mesma operadora A está dando um “baita” prejuízo ... que as operadoras estão nadando em dinheiro ... que as operadoras estão passando dificuldade.

As vezes se utilizando de um número dentro de um contexto, que não serve para todos os contextos ... e as vezes este número vira “um mantra” para generalizar todo o mercado da saúde suplementar, como se fosse composto por operadoras “100 % homogêneas” a ponto do que acontece com uma ser a regra para todas as outras ... e não é ... na verdade, não tem como ser !

O mercado da saúde suplementar, de homogêneo tem muito pouco ... as empresas se enquadram em “tipos” que não tem nada a ver umas com as outras ... mesmo dentro de um mesmo tipo, encontramos, por exemplo, uma Amil e uma Prevent Senior que são “empresas” completamente diferentes ... em outro tipo uma Cassi e uma GEAP ... uma Unimed Campinas e uma Central Nacional Unimed ... nada a ver !

A única coisa que as operadoras realmente têm em comum é operar plano de saúde regulado pela ANS, porque o negócio delas é completamente diferente ... a razão de existir delas é completamente diferente.

Então quando vemos um gráfico como este, é necessário, antes de mais nada, saber para que ele serve e, principalmente, para que ele não serve:

·         Ele demonstra a diferença entre o dinheiro que entra na operadora e o dinheiro que sai ... o total de receitas e o total de despesas;

·         Sob esta visão, se o resultado da operação aritmética for negativo, a operadora tem prejuízo ... se for positivo tem lucro;

·         Demonstra a quantidade de operadoras que tiveram “este prejuízo contábil”, ano a ano, desde 2019, até o fechamento do primeiro semestre de 2025;

·         Ele serve para “medir a temperatura” do mercado ... se existe uma tendência do mercado estar em retração ou não ... apenas para isso.

Então é fácil, analisando o gráfico:

·         Retratar que antes da pandemia o mercado estava estável;

·         Que 2021 e 2022 foram anos que desestabilizaram as operadoras;

·         A partir de 2023 o mercado começou a se recuperar;

·         Mas avaliando 23, 24 e 25 não existe sinalização de que o mercado volte a ser o que era antes da pandemia ... porque a saúde suplementar mudou ... e mudou muito !

Serve para avaliar tendência apenas, porque mesmo nos piores anos desta série, tivemos operadoras que “nadaram de braçada na marola”, e mesmo recuperação recente do mercado, temos operadoras “totalmente nas cordas”, torcendo para o “gongo tocar”.

Para generalizar, teríamos que ter indicadores “quase batendo lá nos 100 %” ... e não tivemos !

“Este indicador não é nem um pouco indicado” para avaliar se o negócio “operar plano de saúde” é um bom negócio ou não !

 

 

Logo “de largada” é sempre necessário lembrar que temos operadoras de assistência médico odontológica, e operadoras de assistência exclusivamente odontológica:

·         Os gráficos separam os dois grupos, e demonstram ano a ano a quantidade total de operadoras ativas, e a quantidade total de operadoras com prejuízo;

·         Percebemos que tivemos maior queda de operadoras de assistência médica do que de operadoras de assistência exclusivamente odontológica;

·         E a curva que relaciona a quantidade de operadoras com prejuízo de assistência médica é bem diferente das de assistência exclusivamente odontológica, já sinalizando que a gente não pode utilizar o indicador anterior de forma generalizada !

 

Podemos analisar a questão de lucro ou prejuízo sob outra visão:

·         Nos gráficos anteriores estávamos comparando o total de receitas contra o total de despesas;

·         Mas para avaliar se o negócio é bom, podemos comparar o total de receitas de contraprestação, que é o que a operadora cobra do cliente, com as despesas assistenciais, que é o que ela declara que paga para prestar a assistência;

·         Assim deixamos fora da conta outras receitas (como receitas financeiras, por exemplo) e outras despesas (administrativas, comerciais ...).

É a diferença, por exemplo, entre analisar se vender hot dog é um bom negócio, ou se todas as barraquinhas de hot dog estão dando lucro ou prejuízo:

·         Por exemplo: já tive um fast food de e o padrão dos lanches do cardápio era extremamente lucrativo;

·         Minha loja dava lucro, mas algumas lojas da rede davam prejuízo.

Com este ponto de vista, quando construímos o gráfico das operadoras com prejuízo, o indicador despenca:

·         Temos uma quantidade muito menor que as do gráfico anterior;

·         Se o negócio é captar dinheiro para prestar assistência médica ou odontológica, os números agora dizem: isso é um bom negócio !

Se a operadora tem um bom negócio (como mostram estes gráficos) mas está com prejuízo quando fecha a conta (como mostram os gráficos anteriores) acho que fica bem claro que o problema pode não ser o produto (o plano de saúde), mas sim a empresa que opera o plano (a operadora) ... não é verdade ?

 

 

E se ao invés de simplesmente considerar quem tem prejuízo aquela em que o total de receita é menor que o total de despesas, e passarmos a considerar uma margem de segurança nesta análise ... explicando:

·         Especialmente as não lucrativas (autogestões e filantrópicas), mas não exclusivamente elas, trabalham com uma expectativa de receita que pode ser ajustada em um período que não bate necessariamente com o “ano calendário”;

·         Os reflexos dos reajustes de preços podem “escorregar” de um período contábil para outro ... quando analisamos o balanço anual está negativo, mas quando pegamos um período de abril a março, por exemplo, não está;

·         Isso é comum ... as vezes analisamos o fluxo de caixa e está bom, mas o balanço está ruim ... ou o vice-versa !

Vamos fazer um exercício:

·         Vamos considerar que está com prejuízo, não a operadora em que está negativo o resultado da subtração receita – despesa ...

·         ... vamos considerar preocupante quando esta diferença desfavorável for maior que 10 % do total de receitas.

Neste caso o volume de operadoras que iríamos considerar com prejuízo cairia substancialmente, como mostram os gráficos !

Ou seja:

·         Se considerarmos simplesmente prejuízo contábil, temos algo em torno de 225 do total de ~ 1.00 operadoras em 2025;

·         Mas se considerarmos quais tiveram diferença entre receitas e despesas acima de 10 % do que captam de receita, temos apenas 82 no total de ~ 1.000 !!!!

Acredito que na maioria dos outros segmentos de mercado temos proporcionalmente mais empresas com esta “dimensão de prejuízo” se compararmos com operadoras de planos de saúde !

Em outras palavras ... operar plano de saúde parece ser um bom negócio, não é verdade ?

 

Nesta mesma linha de raciocínio:

·         Se ao invés de simplesmente comparar receitas de contraprestação com despesas assistenciais e ver “se dá negativo”;

·         Considerar como ruim apenas aquelas em que esta diferença seja maior que 10 % da receita de contraprestação da operadora ...

·         ... nas de assistência médica e odontológica cai de 36 para 24 ...

·         .. e nas de assistência exclusivamente odontológica ... nenhuma !!!!

 

 

O perfil pode até mudar um pouco se estratificarmos separando as com e sem fins lucrativos ...

·         ... mas no geral, na média, seja para as que buscam lucro na operação de planos de saúde, ou fazem isso como missão institucional da mantenedora ...

·         ... os números demonstram que o resultado operacional é bem favorável no sentido de entender que a maioria das operadoras está dentro de um grupo de “estado da arte” da gestão.

Nos permite afirmar que “os profetas do apocalipse” que dizem que a saúde suplementar regulada está falida e vai desaparecer em breve, estão enganados !

 

 

Quando comparamos o % de operadoras com prejuízo na relação receitas e despesas, com o % de operadoras em que a receita de contraprestação é menor que a despesa assistencial ...

·         ... como demonstra o gráfico ...

·         ... sacramenta a visão de que a saúde suplementar regulada continua sendo um excelente negócio, para quem explora a saúde como negócio !

Há uns poucos anos existiu um grupo de analistas que pareciam torcer pelo fracasso das operadoras ... na verdade ainda existem alguns que teimam em generalizar o que “não é generalizável”.

Isso ocorreu especialmente no final do “olho do furacão da pandemia” quando os atendimentos eletivos que foram suspensos:

·         Conforme “a pandemia foi sendo vacinada” começou “a cobrar a conta” das operadoras, gerando um pico de demanda nunca antes experimentado na saúde suplementar;

·         Os cautelosos tiveram melhor assertividade quando afirmavam que haveria tempestade, mas que a tempestade não duraria para sempre;

·         Em alguns anos, gradualmente as operadoras ajustariam a relação sinistralidade com receita até voltar a normalidade.

Uma parte afirmou que a saúde suplementar nunca mais voltaria a ser o que era ... eu fui um deles ... e realmente não voltará a ser o que era, como demonstram todos estes gráficos.

Voltar ao que a saúde suplementar era em 2019 ... com as margens que existiam até 2019 ... não vai acontecer.

Já se passam 6 anos do início da pandemia ... e a saúde suplementar mudou significativamente, por diversos motivos que já não têm nada a ver com a crise da pandemia:

·         A população continua envelhecendo;

·         A tecnologia incorporada no segmento vai sendo implantada, e em conjunto com protocolos mais seguros para o paciente, naturalmente vai encarecendo a assistência;

·         A concorrência entre as operadoras vai reduzindo a possibilidade delas repassarem para os clientes com a mesma margem que tinham antes;

·         Tudo mudou ... evoluiu ... graças a Deus, apesar de todas as críticas que podemos fazer a respeito de “um monte de coisas” que poderiam ter evoluído de forma diferente ... está evoluindo ... de modo geral evoluindo ... regredindo em algumas coisas sim, mas no geral evoluindo na maioria das outras.

Voltar a 2019 não vamos mais ... mas isso não significa que “o novo normal” é de “jogar uma pá de cal” nas operadoras.

Lucro ou prejuízo, como demonstram os números, depende e muito de que tipo de análise se deseja fazer sobre a saúde suplementar ... sobre as operadoras ... sobre o negócio plano de saúde ... sobre o contexto de análise !

Em tempo: ou no final de outubro, ou em meados de novembro próximos, em ação da FFM – Fundação Faculdade de Medicina, vamos promover um workshop gratuito sobre o mercado da saúde suplementar, para apresentar a “Evolução dos Principais Indicadores dos Sistemas de Financiamento da Saúde”. Vamos divulgar a data e instruções para participação em breve para operadoras de planos de saúde que já são parceiras da FFM, e para as que estão em processos de relacionamento para formalizar contratos de parceria. Quem tiver interesse de participar pode sinalizar para mim ... será um grande prazer contar com a participação do maior número de gestores possível ... porque quanto maior o número de gestores da saúde tivermos trabalhando com números reais do mercado, e não “achismos”, melhor a gestão da saúde ... e melhor o acesso da população à saúde pública e privada !

Consultoria  e  Coaching de Carreira  para gestores na área da saúde privada e pública  www.escepti.com.br

Cursos Profissionalizantes em Gestão da Saúde  para gestores da saúde privada e pública     www.cpgs.net.br

Jornada da Gestão em Saúde de cursos abertos e “in company”  www.jgs.net.br

Lista de milhares de profissionais certificados   www.escepti.com.br/certificados

Conteúdo especializado para gestores da área da saúde privada e pública  www.noticia.net.br

Geografia Econômica da Saúde no Brasil, e seminários temáticos  www.gesb.net.br

Modelos para gestão em saúde (livros gratuitos para download)  www.escepti.com.br

Contato  contato@escepti.com.br

 

Sobre o autor Enio Jorge Salu

CEO da Escepti Consultoria e Treinamento

Histórico Acadêmico

·  Formado em Tecnologia da Informação pela UNESP – Universidade do Estado de São Paulo

·  Pós-graduação em Administração de Serviços de Saúde pela USP – Universidade de São Paulo

·  Especializações em Administração Hospitalar, Epidemiologia Hospitalar e Economia e Custos em Saúde pela FGV – Fundação Getúlio Vargas

·  Professor em Turmas de Pós-graduação na Faculdade Albert Einstein, Fundação Getúlio Vargas, FIA/USP, FUNDACE-FUNPEC/USP, Centro Universitário São Camilo, SENAC, CEEN/PUC-GO e Impacta

·  Coordenador Adjunto do Curso de Pós-graduação em Administração Hospitalar da Fundação Unimed

Histórico Profissional

·  Pesquisador Associado e Membro do Comitê Assessor do GVSaúde – Centro de Estudos em Planejamento e Gestão de Saúde da EAESP da Fundação Getúlio Vargas

·  Membro Efetivo da Federação Brasileira de Administradores Hospitalares

·  CIO do Hospital Sírio Libanês, Diretor Comercial e de Saúde Suplementar do InCor/Fundação Zerbini, e Superintendente da Furukawa

·  Diretor no Conselho de Administração da ASSESPRO-SP – Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação

·  Membro do Comitê Assessor do CATI (Congresso Anual de Tecnologia da Informação) do Centro de Tecnologia de Informação Aplicada da Fundação Getúlio Vargas

·  Associado NCMA – National Contract Management Association

·  Associado SBIS – Sociedade Brasileira de Informática em Saúde

·  Autor de 12 livros pela Editora Manole, Editora Atheneu / FGV e Edições Próprias

·  Gerente de mais de 200 projetos em operadoras de planos de saúde, hospitais, clínicas, centros de diagnósticos, secretarias de saúde e empresas fornecedoras de produtos e serviços para a área da saúde e outros segmentos de mercado