Evolução da complexidade no faturamento e auditoria de contas
0454 – 03/02/2026
Ref.: Cursos Profissionalizantes em Gestão da Saúde, e Geografia Econômica da Saúde no Brasil
Formas de apresentação das contas não reduz a complexidade da formação, apresentação, glosas ...
(*) todos os gráficos e ilustrações são partes integrantes do Estudo Geografia Econômica da Saúde no Brasil e do material didático do Programa Cursos Profissionalizantes em Gestão da Saúde, e das consultorias da Escepti
Os gráficos demonstram explicitamente que temos uma evolução absurda na quantidade de leitos de internação na Cidade de São Paulo:
· Para quem não é do ramo, pode achar que um crescimento de 14 % entre 2019 e 2025 é pouco se comparar, por exemplo, com o crescimento de empresas de fast food, de venda pela internet, de vendas de ingressos para shows, de usuários em aplicativos de apostas ...
· Estas coisas são supérfluas ... a gente consome porque quer ... não porque necessita !
· Você pode fazer comida em casa, ir ao mercado ao invés de comprar pela internet, se reunir com familiares para assistir ao show na TV paga ... o crescimento desses mercados vem de “modismos” e/ou de mudanças de hábitos e/ou da capacidade que o marketing tem de influenciar a opinião das pessoas sobre o que é melhor para voce ...
· Então esses mercados crescem, mesmo que a população não cresça ... o aumento da venda na internet reduz as compras na loja física ... mas o aumento de vendas geral não cresce ... depende do poder de compra dos consumidores !
Com internação “a prosa não é bem assim”:
· É verdade que existem alguns “hipocondríacos” que consomem saúde como consomem uma “taça de vinho”, aportando qualidades de gosto que variam de uma pessoa para outra, e pagando mais pela marca ... se é que me entende !
· Mas “a maioria absoluta da maioria absoluta” das pessoas “não vê graça nenhuma” em ficar internado !
· O volume de internação não cresce por “impulso consumismo”, muito pelo contrário: temos uma “repulsa convulsiva” em não querer ser internado;
· Então, um crescimento de 14 % no volume de leitos, que está associado ao crescimento das internações ... na saúde ... onde internação é o evento mais caro ... que mais onera os sistemas de financiamento ... é algo absolutamente fantástico !
E os gráficos demonstram uma outra coisa ... que não é explícita ... mas é implícita e percebida para quem lida com “os meandros” da gestão da saúde:
· Mais leitos ... mais internações ... mais internações, mais contas para serem autorizadas, formadas, analisadas, auditadas, glosadas, recursadas ...
· E não são contas simples como as que “um boteco” apresenta para quem vai consumir “uma porção e uma cervejinha”, e que mesmo simples invariavelmente tem erros, não é verdade ?
· São contas que se formam a partir de “uma infinidade de regras” contratuais e de práticas de mercado e do vínculo com as informações que estão no prontuário do paciente que, “vamos combinar”, não é uma coleção de documentos que a gente pode classificar como simples de serem analisados, é ou não é ?
Se voce não é do ramo da gestão da saúde ... do financiamento da saúde ... pode achar que “uma infinidade de regras” e dificuldade de análise de prontuário é exagero ... creia em mim ... creia em alguém que “milita nesta seara há décadas”: não é exagero algum !

Talvez alguém possa achar que esta expansão de volume de leitos seja privilégio de São Paulo, que é a “Capital do Turismo da Saúde do Brasil”, e importa pacientes de outras cidades, é que se dê a grande expansão dos leitos.
Mas, só para exemplificar o contrário, se “pegar uma Brasília Amarela” de São Paulo e ir para Santos vai passar por cidades da região conhecida como “ABC Paulista”:
· O gráfico demonstra o crescimento do número de leitos do SUS de Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul e de Santos;
· Tirando Santos que já tem tradicionalmente uma das maiores disponibilidades de leitos per capita para o SUS do Brasil, todas tiveram expansão de volume de leitos SUS muito maior que São Paulo !
Tem gente que pensa que conta hospitalar de internação do SUS é simples, porque “é pacote”:
· Um grande erro pensar assim – as contas de internação do SUS são mais resumidas, mas não são pacotes;
· Se quem pensa assim é um administrador hospitalar, pode estar certo de que o hospital que ele gere não aproveita a oportunidade de captar mais receita do SUS, perdendo receita em processos de faturamento completamente falhos;
· E, “de quebra”, tem dificuldade até de demonstrar que a sua produção está compatível com as metas da FPO !
· “Estou cansado de ver” ao longo dos anos hospitais que produzem muito mais do que a meta, e acabam tendo redução de repasse porque não conseguem demonstrar isso nas AIHs que enviam para o SUS !!

E quando analisamos a evolução dos leitos de saúde suplementar das cidades da “rota da Brasília Amarela São Paulo Santos”:
· Tirando Santo André que já tinha uma grande oferta proporcional de leitos para a população na saúde suplementar por conta do desenvolvimento de uma importante Fundação que atua na área da saúde e educação, fantástica, todas as cidades tiveram aumento de leitos muito maior que São Paulo;
· O crescimento de São Caetano, cidade pequena em tamanho físico, mas com um PIB per capita dos maiores do Brasil, é impressionante neste período – acredito que poucas cidades no mundo tiveram uma expansão de leitos na saúde privada tão grande quanto ela !!
Ou seja, os gráficos demonstram que o turismo da saúde de São Paulo não é tão significativo a ponto de impedir o grande crescimento de leitos na região ... e isso vale para o interior do Estado.
A expansão de volume de leitos na saúde suplementar é grande em todo o Brasil.
E ... aumento de leitos ... aumento de internações ... aumento de contas de maior complexidade ... é fato !

Ao mesmo tempo em que estamos desenvolvendo um treinamento em gestão do faturamento e auditoria de contas hospitalares para um grupo de 72 gestores, de 35 empresas diferentes, de 17 cidades diferentes, pela FF por iniciativa da Marinha, avalio na minha rotina profissional várias propostas de reajustes de preços de contratos entre operadoras de planos de saúde e serviços de saúde.
Para exemplificar, especialmente na negociação de uma operadora com um serviço de saúde de uma cidade do interior do Estado de São Paulo, foi insistente o argumento da operadora eliminar completamente os itens de preço que não fossem pacotes e diárias globais.
Foi necessário que eu demonstrasse a inviabilidade da proposta exemplificando as situações que inviabilizam esta possibilidade. São muitas situações, mas somente para citar a principal, havendo qualquer intercorrência, o preço pactuado para realizar um procedimento não poderá representar o custo do atendimento em que foram realizados outros.
Então, independentemente do preço ter sido acordado, o serviço de saúde tem que compor a conta sempre de forma aberta:
· E a composição da conta passa por uma sequência de processos exemplificados na figura;
· Que envolvem áreas assistenciais diferentes, exigindo a participação de todas nos registros que compõem a conta;
· Que envolvem profissionais assistenciais de diversas disciplinas ... médicos, enfermeiros, fisios, farmacêuticos ... que atuam em processos diferentes, produzindo informações diferentes, com padrões diferentes.

E, por incrível que pareça, ainda que estejamos em 2026 ...
· ... já sabemos fazer um foguete retornar do espaço e pousar, sem ter que cair no oceano desordenadamente ...
· ... temos automóveis com “milhões de câmeras” e dispositivos que nos auxiliam a manobrar, frear em situações de risco, avisar se não estamos fazendo a curva ...
· ... temos equipamentos que monitoram em tempo real algumas das doenças de maior frequência ...
· Mas boa parte dos hospitais ainda começa a compor a conta hospitalar somente depois de dias da alta do paciente !!!
Sabemos instantaneamente quanto tempo demora para ser chamado após tirar a senha em uma loja de telefonia ... mas ainda temos uma enormidade de hospitais em que o paciente tem alta e o hospital nem começou a formar a conta, e a fonte pagadora (SUS, Operadora ou paciente particular) não tem a menor ideia do que será apresentado na conta ... um absurdo !
Um hospital que auxilio há anos foi sendo “apertado” pela operadora para entregar as contas cada vez mais próximo da alta do paciente ... quando comecei a auxiliá-los o prazo era de 20 dias e o hospital reclamava:
· O tempo de fechamento das contas foi caindo e estava se estagnando em um patamar de 10 dias;
· Eu particularmente ainda achava alto, mas como a operadora estava “confortável” saiu da agenda do hospital melhorar os processos para redução do tempo;
· Até que em uma negociação anual de reajustes de preços a operadora exigiu 3 dias úteis, colocando uma cláusula de multa por descumprimento de prazo;
· E hoje o hospital cumpre regularmente o prazo de 3 dias úteis !
Como conseguir ? É claro que com capacitação e melhoria dos processos. Na virada do século ... na época do “bug do milênio” que a maioria das pessoas quer estão lendo este texto nem sabe o que foi ... o hospital em que eu trabalhava já apresentava os saldos das contas de operadoras e pacientes particulares em tempo real ! E nesta época os recursos de eram “escassíssimos” – nem Internet existia !
Os 3 dias de prazo são bons para a operadora que trabalha melhor a liberação das reservas garantidoras exigidas pela ANS ... e bons para o hospital que tem a receita financeira sendo realizada em prazo mais curto no seu fluxo de caixa ... simples assim.
Mas conheço hospitais que, porque o contrato permite até 90 dias para remessa da conta após o evento, coloca 90 dias na meta de fechamento do faturamento:
· É inacreditável ... é o foguete soltando partes pelo espaço e caindo “aleatoriamente em algum lugar do oceano pacífico”, se é que me entende;
· E podem não acreditar ... juro por Deus ! ... ainda perdem o prazo de remessa ... apresentam contas com mais de 90 dias !
· E depois, é claro, “ajoelham no milho” na frente da operadora implorando para conseguir que pague !
· E, é claro também, que quando a operadora paga e aplica um desconto, o hospital ainda reclama que é uma atitude indecente por parte da operadora;
· Imagine ... hoje, em 2026 ... o que representa receber por um produto que produz 90 dias depois, o quanto se perde de receita em aplicação financeira ... o que mesmo é indecente neste caso ?
· Imagine “ir ao boteco” e receber a conta para pagar a porção e a cervejinha 90 dias depois !!!
Ir melhorando o processo de faturamento ao longo do tempo é o que chamamos de gestão do faturamento:
· Faturar as contas, é trabalhoso, mas é atividade relativamente simples ... atividade do faturista ... temos “milhares e milhares” de bons faturistas no Brasil ... tive a oportunidade de interagir com centenas, talvez mais de 1.000 bons faturistas nesta minha longa jornada na gestão da saúde;
· Gestão do faturamento, “maximizando a receita ao máximo possível” que o contrato e as regras permitem ... minimizando as perdas de receitas que “ficam debaixo do tapete” ... isso é outra coisa ... ao contrário de faturistas, que temos muitos, gestores de faturamento ainda não temos o suficiente !

Tantas regras ... tantos erros ... é o que torna a auditoria de contas tão importante:
· Na saúde suplementar e no SUS ... não se engane pensando que no SUS os problemas não existem ... acredite: os erros existem e podem ser muito mais significativos para o equilíbrio financeiro da contratualização entre o Órgão Gestor e o Serviço de Saúde se não existir uma boa gestão da auditoria !
· Tem tanta coisa para ser auditada, que há décadas digo que não existe recurso suficiente na auditoria para auditar tudo que é necessário na saúde;
· Nunca existiu, não existe e nunca existirá ... os recursos de auditoria são insuficientes para apontar tudo que poderia apontar.
A auditoria ... a melhor estrutura de auditoria ... é aquela que é seletiva em relação ao que vai auditar ... isso é o que chamamos de gestão da auditoria:
· “Bater o prontuário com a conta” para descobrir divergências ... “bater a documentação com a conta” para descobrir divergências ... avaliar a compatibilidade da realização do procedimento com o caso ... isso é auditoria;
· Temos milhares de bons auditores, mas isso não é gestão da auditoria.
Uma vez que os recursos são escassos, gestão da auditoria é priorizar o que é mais importante:
· Definir uma linha de atuação do auditor de modo que, já que não conseguimos auditar tudo, que auditemos o que dá mais resultado para o que se espera da nossa auditoria;
· Não deixar auditor perder 1 hora para apontar o erro no lançamento de uma bolinha de algodão !
· Valorizar a hora do auditor de modo que ele trabalhe nas contas mais importantes, e gaste tempo apontando erros mais significativos ...
· De não lançamento da conta se ele for um auditor do serviço ... ou de excesso no lançamento na conta se ele é auditor da fonte pagadora.
E, no caso do que ilustra a figura:
· Se existem casos em que o papel do auditor se alterna, ora fazendo o papel de quem vende o serviço, ora de quem compra, na mesma instituição;
· É ainda mais importante , definir prioridades para que ele não tenda a fazer somente uma coisa ... aquilo que ele acha que é mais importante sem avaliar todo o contexto;
· A auditoria tem que maximizar as duas coisas ... dando prioridade para o que é mais significativo nos apontamentos que serão feitos;
· Isso é gestão da auditoria ... temos muitos bons auditores no Brasil ... tive a oportunidade de trabalhar com centenas deles ... mas ainda não temos no Brasil um contingente adequado de gestores de auditoria.
Bem ... o cenário está “posto na mesa’:
· Tendência de aumento nas internações e nas contas de internações;
· Tendência de aumento da complexidade das contas em função da evolução das regras comerciais e regulamentações;
· E, por consequência, tendência de necessitarmos de um maior número de gestores de faturamento e de gestores de auditoria ... com competência em gestão, além do necessário conhecimento técnico que chamamos de aferição “cara crachá”, que é confrontar a conta com os documentos !
Contas tipo pacote só servem para dar previsibilidade de sinistralidade para a operadora, mas não eliminam a necessidade do serviço compor as contas de forma aberta.
As contas significam o melhor tipo de informação que a gestão, tanto do serviço de saúde como da fonte pagadora !
Foi muito legal ... foi uma honra ... ter tido ontem a oportunidade de interagir mais uma vez com tantos gestores da área da saúde de tantas empresas para discutir este assunto ontem !!!
Cursos Profissionalizantes em Gestão da Saúde para gestores da saúde privada e pública www.cpgs.net.br
Conteúdo especializado para gestores da área da saúde privada e pública www.noticia.net.br
Geografia Econômica da Saúde no Brasil, e seminários temáticos www.gesb.net.br
Consultoria especializada para hospitais e operadoras de planos de saúde contato@escepti.com.br
Sobre o autor Enio Jorge Salu
CEO da Escepti Consultoria e Treinamento
Histórico Acadêmico
· Formado em Tecnologia da Informação pela UNESP – Universidade do Estado de São Paulo
· Pós-graduação em Administração de Serviços de Saúde pela USP – Universidade de São Paulo
· Especializações em Administração Hospitalar, Epidemiologia Hospitalar e Economia e Custos em Saúde pela FGV – Fundação Getúlio Vargas
· Professor em Turmas de Pós-graduação na Faculdade Albert Einstein, Fundação Getúlio Vargas, FIA/USP, FUNDACE-FUNPEC/USP, Centro Universitário São Camilo, SENAC, CEEN/PUC-GO e Impacta
· Coordenador Adjunto do Curso de Pós-graduação em Administração Hospitalar da Fundação Unimed
Histórico Profissional
· Pesquisador Associado e Membro do Comitê Assessor do GVSaúde – Centro de Estudos em Planejamento e Gestão de Saúde da EAESP da Fundação Getúlio Vargas
· Membro Efetivo da Federação Brasileira de Administradores Hospitalares
· CIO do Hospital Sírio Libanês, Diretor Comercial e de Saúde Suplementar do InCor/Fundação Zerbini, e Superintendente da Furukawa
· Diretor no Conselho de Administração da ASSESPRO-SP – Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação
· Membro do Comitê Assessor do CATI (Congresso Anual de Tecnologia da Informação) do Centro de Tecnologia de Informação Aplicada da Fundação Getúlio Vargas
· Associado NCMA – National Contract Management Association
· Associado SBIS – Sociedade Brasileira de Informática em Saúde
· Autor de 12 livros pela Editora Manole, Editora Atheneu / FGV e Edições Próprias
· Gerente de mais de 200 projetos em operadoras de planos de saúde, hospitais, clínicas, centros de diagnósticos, secretarias de saúde e empresas fornecedoras de produtos e serviços para a área da saúde e outros segmentos de mercado