Mercado Hospitalar Brasileiro onde tamanho nem sempre é documento
0471 – 18/05/2026
Ref.: Cursos Profissionalizantes em Gestão da Saúde, e Geografia Econômica da Saúde no Brasil
Eficiência e Resultado do Negócio Hospitalar dependem mais do foco e da gestão do que do número de leitos
(*) todos os gráficos e ilustrações são partes integrantes do Estudo Geografia Econômica da Saúde no Brasil e do material didático do Programa Cursos Profissionalizantes em Gestão da Saúde, e das consultorias da Escepti
A evolução do volume de estabelecimentos com leitos é diferente da evolução do volume de leitos no Brasil. Os indicadores, reais, são diferentes da percepção da maioria das pessoas que conheço, que acham que os gestores devem se especializar no relacionamento com grandes hospitais, e que eles vão ao longo do tempo “extinguir” os pequenos. O “mercado” de internações, privada e pública”, como demonstram os números, é bem diferente disso.
Semana passada dei minha última aula no MBA de Gestão em Saúde do HCX da Faculdade de Medicina, completando o ciclo da disciplina Relacionamento onde, após a primeira aula em que exploramos o B2C, desta vez exploramos o B2B.
Quando escrevi meu primeiro livro em 2012, de título “Administração Hospitalar no Brasil” nem imaginava que em 2026, sem nenhuma atualização de versão, ainda hoje na versão original, o livro ainda pudesse estar sendo vendido ... e nem imaginava também que o conteúdo fosse ser aplicado a estabelecimentos de saúde com leitos, e não somente hospitais:
· Naquela época a minha experiência profissional pessoal ainda se resumia a algumas poucas dezenas de hospitais;
· Atualmente, colecionando atividade em mais de 200 estabelecimentos com leitos, que têm realidades tão diferentes, fico absolutamente honrado em poder saber que boa parte do conteúdo do livro se aplica não somete para hospitais, mas para milhares de estabelecimentos com leitos ... hospitais ou não !
Nesta turma de MBA de gestão, em uma disciplina de relacionamento, foi gratificante reforçar a discussão sobre porte de instituições da área da saúde:
· As instituições são muito diferentes ... os interesses muito diferentes ... os requisitos de relacionamento entre elas muito diferentes ...
· Mas a essência dos processos críticos de manter um paciente internado ... os mais críticos ... guardam grande similaridade;
· O que temos que controlar, na essência, em relação a uma internação de paciente, seja em instituição pública ou privada, é muito similar ... o que muda é a forma como nos relacionamos com os clientes ... internos e externos ... fontes pagadoras, fornecedores, parceiros de negócios.
Deus me iluminou quando, ao escrever o livro, foquei nas relações “clientes-fornecedores internos” e outros aspectos operacionais da administração hospitalar como indicadores, custos e produtos dos processos da gestão e da estrutura organizacional hospitalar:
· Essas coisas, é claro que mudam ao longo do tempo ... mas mudam pouco;
· A tecnologia muda, e muda muito, os processos internos, mas os processos continuam invariavelmente entregando o mesmo produto ao cliente ...
· ... modificamos a forma de fazer as coisas, podemos até modificar a cadeia de atores envolvidos “na atividade meio”, mas o ator final, o que recebe o produto do processo, invariavelmente permanece o mesmo ... o produto final pode, e deve, ter a qualidade melhorada, mas invariavelmente continua sendo o mesmo produto que era antes ... se a gestão for eficiente, um produto melhor, com melhor qualidade, mas quase 100 % das vezes o mesmo produto;
Agora ...
· ... já o relacionamento do hospital com o mercado ...
· ... isso mudou, muda e vai continuar mudando muito;
· E este aspecto da gestão hospitalar não é foco do livro, por isso a obsolescência dele não foi tão significativa a ponto de “virar peça de museu”, pelo menos ainda !
· Foi foco nesta aula que tive a oportunidade de ministrar no MVA do HCx !!!
O gráfico nos apresenta uma característica interessante do segmento hospitalar:
· Ele demonstra a evolução do número de estabelecimentos que têm leitos no Brasil, entre 2017 e 2025;
· Havia excesso antes da pandemia, que ano a ano vinha reduzindo a quantidade de estabelecimentos;
· Quando veio a pandemia começou a retomar o crescimento ... e não era pra menos: surgiram “às pressas” uma “penca” de hospitais de campanha para tratar COVID-19 ... lembra ?
· Mas passou a pandemia, e a tendência de queda do “antes pandemia” não perseverou ... o crescimento “do pandemia” se manteve ... e se mantém.
Vemos que o volume total até que cresceu:
· Cresceu pouco ... 9,5% ... quando comparamos com os padrões de expansão apresentados na maioria dos indicadores de recursos físicos da área da saúde ... expansão dos estabelecimentos com leitos quando comparada com a expansão de postos de trabalho, equipamentos, faturamento dos hospitais ... pode ser classificada como baixa !
· Mas as mudanças nos relacionamentos entre estes estabelecimentos e os demais do segmento mudaram absurdamente;
Mudaram absurdamente no SUS:
· Onde o aporte complementar de recursos próprios do órgão gestor municipal e estadual para internações teve que crescer muito, em função do congelamento da Tabela SIGTAP;
· E especialmente, pelo avanço da terceirização da saúde pública, seja em credenciamentos, seja em gestão (OS’s por exemplo), seja em parcerias (PPP’s por exemplo) ... os terceiros só trabalham se forem remunerados para, pelo menos, cobrir os custos;
Mudaram absurdamente na Saúde Suplementar:
· Onde a verticalização nas operadoras se intensificou;
· E se intensificaram também os modelos de negócios disruptivos, como principal exemplo a fusão entre operadoras de planos de saúde com redes de hospitais.
É interessante citar que parte dos estabelecimentos com leitos que existiam bem antes da pandemia já estavam perdendo “a função social”:
· Tínhamos, por exemplo, mais maternidades do que hoje, que com a redução do índice de natalidade deixaram de ser necessárias ... condenadas pela “velha lei da oferta e da procura”;
· Tínhamos, por exemplo, mais hospitais psiquiátricos “tipo manicômio”, remanescentes de uma época em que internávamos pacientes com transtornos mentais sem necessidade ... e cuidávamos muito mal deles quando estavam internados, é bom que se diga;
· E assim por diante.
O crescimento, após a pandemia, “é outro” ...

O movimento de desospitalização que tomou corpo antes da pandemia “está tendo um inimigo ferrenho”: o envelhecimento da população.
E que bom ter um inimigo assim ! Fala sério ! ... pior seria batalhar contra mortalidade infantil que vai na direção contrária !!
Pessoas com mais idade necessitam de maiores cuidados de procedimentos de maior complexidade ! Invariavelmente, procedimentos que necessitam de suporte de uma estrutura hospitalar de retaguarda: de um estabelecimento com leito !
A necessidade de expansão de estabelecimentos com leitos é indiscutível “nesse novo normal do etarismo” no Brasil !
O gráfico demonstra bem este fenômeno.
As barras azuis representam os estabelecimentos que só têm leitos SUS:
· No início, antes da pandemia, uma queda, capitaneada por aquele movimento de desospitalização na área pública;
· Na pandemia a retomada do crescimento, e depois dela, a constatação da constância de crescimento;
· O SUS não escapa da mudança de perfil da população, e nem sempre consegue credenciar para a necessidade que tem, sendo obrigado, ele mesmo, a construir seus próprios hospitais públicos ...
· ... e nesse aspecto ocorre com o SUS o que ocorre com os Correios ... tem um monte de empresas de logística “comendo” o mercado dos correios para entregas ... mas só querem entregar nas grandes regiões metropolitanas onde o lucro é certo ... em pequenas e longínquas e remotas cidades, sobra para os Correios, com prejuízo, porque tem obrigação constitucional de fazer em todo o território nacional, seja lá “no cantinho” do Brasil que for ... e se não fosse esta obrigação constitucional, vamos combinar: ele também não faria !!!
As barras laranjas representam os estabelecimentos que só têm leitos da Saude Suplementar:
· Em um cenário em que houve “quase nada” de crescimento de volume de beneficiários, crescimento significativo do volume de estabelecimento com leitos;
· A relação leito por beneficiário cresce, porque mantendo praticamente os mesmos beneficiários, a cada ano, a carteira fica “um ano mais idosa” ... “continha simples de ser feita” ... demandando maior necessidade de internação.
E o gráfico é fantástico porque tem muita gente que ainda diz que a saúde suplementar vai se descolando cada vez mais do SUS em função do problema de financiamento baseado em uma tabela de preços (SIGTAP) não reajusta desde “que o homem deixou a primeira pegada na lua”:
· Ele demonstra que isso não é verdade;
· As barras cinzas demonstram que existe um crescimento, embora muito discreto, mesmo de estabelecimentos que têm leitos tanto do SUS como da SS;
· Se o que estas pessoas dizem fosse verdade absoluta, a linha de tendência das barras cinzas estaria “mergulhando” e não “flutuando”, não é verdade ?

Um outro “mito” sem sentido que muitas pessoas têm é o de defender que pequenos hospitais não são sustentáveis ... o gráfico serve bem para contradizer esta afirmação:
· Quase 68 % dos estabelecimentos com leitos no Brasil se formam por estabelecimentos com até 50 leitos;
· Os grandes hospitais representam apenas 5 % do total.
Analisando friamente:
· Metade dos leitos existentes no Brasil estão em hospitais com até 100 leitos, e a outra metade para os demais, com uma concentração interessante de ser analisada em hospitais entre 200 e 500 leitos;
· E conheço algumas dezenas de pequenos hospitais muito mais lucrativos do que muitos hospitais grandes que não se rentabilizam e ficam “passando de mão em mão” de acionistas diferentes, se é que me entende !
É bom sempre lembrar que parte dos “hospitais gigantes” que existem com mais de 200 leitos, especialmente os de mais de 500 leitos, são hospitais psiquiátricos:
· A dinâmica desses hospitais favorece a existência de “leitos no atacado”;
· O paciente não fica deitado no leito ... em quase 100 % dos casos ele vai para o leito apenas para dormir;
· Os leitos deles não tem um aparato de infraestrutura caro, nem de retaguarda assistencial intensa;
· O paciente “mora nele” por algum tempo e fica “vagando pelo hospital” como fazemos quando estamos em um resort;
· O quarto é como um quarto das nossas casas que utilizamos para ir dormir ... o leito é como nossa cama residencial ... o hospital, guardadas as devidas ressalvas, tem muito mais de característica de uma “pousada”, e não de um hospital;
· Nessas condições, um estabelecimento com muitos leitos se viabiliza !
Isso não quer dizer que o paciente nesses hospitais fica sem atenção assistencial ... muito pelo contrário ... já atuei profissionalmente em alguns, públicos e privado, e o plano de cuidados de todos eles considero exemplar ... de todos esses, sem exceção !!

Em uma turma como esta de MBA, em que parte dos alunos está se preparando para assumir ... quem ainda não assumiu, um dia certamente vai assumir ... a gestão de um hospital, é muito gratificante discutir relacionamento e mercado:
· O mercado de trabalho deles ... o objetivo de carreira deles ... não pode mirar exclusivamente em instituições gigantes como sendo o que vai provar o seu sucesso profissional;
· Se tiver a chance de assumir uma posição importante em uma instituição gigante pode ser bom ... mas também poderá ser desafiador a ponto de ser uma passagem muito curta, muito curta entende ? ... ou poderá ser uma posição figurativa, longeva, mas sem a possibilidade de desenvolver seu potencial ... estar em uma empresa grande não significa nem sucesso, nem fracasso profissional ... estar em uma grande empresa significa estar inserido em grandes estruturas, grandes equipes de trabalho, com menor exposição individual “em nome da equipe”;
· As instituições de médio e pequeno porte vão exigir mais, possibilitar maior desenvolvimento profissional, e satisfação na parcela que depende dele para o resultado da instituição ... tem maior potencial para sucesso e fracasso, porque invariavelmente a exposição individual é maior.
E o fato de ser pequeno não significa que, na média, a remuneração é menor ... acredite ... muito pelo contrário ... pode acreditar em quem está no mercado há décadas !
A figura demonstra a realidade “nua e crua” do perfil dos estabelecimentos com leitos na saúde no Brasil:
· Somos um país em que o mercado de trabalho hospitalar é prioritariamente em hospitais de pequeno e médio portes;
· E em um mercado onde os grandes hospitais são muito grandes comparados com os outros;
· Os pequenos são “muitos em quantidade”, e os grandes “muito grandes em tamanho”.
Se pude auxiliar os alunos do MBA nesta disciplina de relacionamento, é que na área da saúde “tamanho não necessariamente é documento” ... basta verificar que:
· Entre os hospitais que estão em maior dificuldade financeira no Brasil, uma boa parte é formada por grandes hospitais “que invariavelmente vendem o almoço para pagar o jantar” !
· E que redes privadas de hospitais, e redes próprias de operadoras de planos de saúde que verticalizam hospitais, e são extremamente profissionalizadas em gestão hospitalar, expandem muito mais em unidades pequenas e médias do que em estabelecimentos gigantes !
Necessitando de acesso a dados do segmento e/ou assessoria especializada no desenvolvimento de estudos macroeconômicos da área da saúde privada ou pública consultar http://www.gesb.net.br/ ou contato@escepti.com.br ... o mesmo canal para assessoria em gestão hospitalar especializada !
Sobre o autor Enio Jorge Salu
CEO da Escepti Consultoria e Treinamento
Histórico Acadêmico
· Formado em Tecnologia da Informação pela UNESP – Universidade do Estado de São Paulo
· Pós-graduação em Administração de Serviços de Saúde pela USP – Universidade de São Paulo
· Especializações em Administração Hospitalar, Epidemiologia Hospitalar e Economia e Custos em Saúde pela FGV – Fundação Getúlio Vargas
· Professor em Turmas de Pós-graduação na Faculdade Albert Einstein, Fundação Getúlio Vargas, FIA/USP, FUNDACE-FUNPEC/USP, Centro Universitário São Camilo, SENAC, CEEN/PUC-GO e Impacta
· Coordenador Adjunto do Curso de Pós-graduação em Administração Hospitalar da Fundação Unimed e do MBA de Gestão do Faturamento e Auditoria de Contas do HCx da Faculdade de Medicina da USP
Histórico Profissional
· Pesquisador Associado e Membro do Comitê Assessor do GVSaúde – Centro de Estudos em Planejamento e Gestão de Saúde da EAESP da Fundação Getúlio Vargas
· Membro Efetivo da Federação Brasileira de Administradores Hospitalares
· CIO do Hospital Sírio Libanês, Diretor Comercial e de Saúde Suplementar do InCor / Fundação Zerbini, Gestor da Saúde Suplementar da Fundação Faculdade de Medicina / Complexo HCFMUSP, e Superintendente da Furukawa
· Diretor no Conselho de Administração da ASSESPRO-SP – Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação
· Membro do Comitê Assessor do CATI (Congresso Anual de Tecnologia da Informação) do Centro de Tecnologia de Informação Aplicada da Fundação Getúlio Vargas
· Associado NCMA – National Contract Management Association
· Associado SBIS – Sociedade Brasileira de Informática em Saúde
· Autor de 12 livros pela Editora Manole, Editora Atheneu / FGV e Edições Próprias
· Gerente de mais de 200 projetos em operadoras de planos de saúde, hospitais, clínicas, centros de diagnósticos, secretarias de saúde e empresas fornecedoras de produtos e serviços para a área da saúde e outros segmentos de mercado