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Até o orçamento do SUS sinaliza a dificuldade de operar planos individuais

0479 – 24/06/2026

Ref.: Cursos Profissionalizantes em Gestão da Saúde, e Geografia Econômica da Saúde no Brasil

Em “Ano Político”, 5,11 % de reajuste vai contribuindo para a redução da qualidade do produto

 

(*) todos os gráficos e ilustrações são partes integrantes do Estudo Geografia Econômica da Saúde no Brasil e do material didático do Programa Cursos Profissionalizantes em Gestão da Saúde, e das consultorias da Escepti

O SUS que tem um orçamento proporcionalmente cada vez menor à necessidade da população, tem um reajuste orçamentário para 2026 maior do que o reajuste definido pela ANS para os planos individuais !!!!

Não tem mágica que as operadoras possam fazer: quem paga por isso no final acaba sendo o beneficiário com planos individuais cada vez mais restritivos, e vão tentando buscar alternativas ainda mais restritivas em cartões de descontos.

E as operadoras vão tendo que se especializar cada vez mais técnicas que extrapolam simplesmente os fatores moderadores e verticalização – necessitam de uma visão 360º que integra a gestão da sinistralidade com a gestão de custos em seus recursos próprios, de modo a maximizar a rentabilidade dos planos de saúde simultaneamente a não reduzir a qualidade assistencial, que não é coisa para amadores, diga-se de passagem.

Ano de eleições majoritárias é uma tristeza ! ... sempre a mesma coisa !!

·         A gente fica escutando uma instância de governo dizendo que bateu recorde de cirurgias ... como se todo ano há décadas isso não acontecesse;

·         Escuta de outra instância de governo dizendo que está dando mais dinheiro para a saúde e acabou com as filas ... como se não existissem filas na área de atuação governamental dele ... e como se o aumento de recurso tivesse sido para todos os níveis de atenção à saúde, para todas as especialidades ... o que não corresponde com o montante de repasse que ele realmente fez;

·         Escuta outras instâncias de governo comemorando a inauguração ou reforma de hospital municipal, que todos sabemos que não se sustenta ao longo do tempo, porque não existe recurso suficiente para os procedimentos de média e alta complexidade no âmbito do município para dar cobertura aos custos;

·         Infelizmente, é uma piada seguida de outra ... que Deus nos dê paciência para aguentar mais um ciclo eleitoral !!!

É importante citar neste início de texto que, por mais problemas que o SUS tenha, que a gente conhece e muito bem, nosso SUS é o melhor ou um dos melhores sistemas de saúde pública do mundo:

·         Não existe nada que entregue para a população de um país da dimensão do nosso o que o SUS entrega;

·         Apesar dos “perrengues” que alguns governos fizeram o SUS passar al longo da história, especialmente durante a pandemia, o SUS evolui ano a ano gradualmente ... organicamente ... porque o SUS está equipado com uma estrutura muito boa para isso !

E é importante citar também que poucos governantes da esfera federal, distrital, estaduais e municipais fizeram algo tão inovador a ponto de “receber uma placa de honra ao mérito” e isso ser credencial para angariar votos:

·         São raros os que poderiam contabilizar votos com coisas realmente inovadoras, e esses não estão em disputas políticas atualmente. Pessoas que fizeram o SUS ser referência mundial em AIDS, a transição para os medicamentos genéricos, a implantação do sistema de informações que hoje nos brinda com dados do DATASUS, a implantação da Farmácia Popular, e outros “marcos” do SUS;

·         Não que os que estão em posse nas várias esferas de governo atualmente sejam ruins ... não se trata disso ... em relação a saúde são na média iguais aos que os antecederam – não generalizo para todos ... apenas os que “afetam o SUS que me afeta”, e que consigo “enxergar”, se é que me entende;

·         Na média, com algumas exceções, todos os governantes seguem o desenvolvimento contínuo do SUS;

·         Alguns que passaram, sim, e não entendem a importância da saúde pública, atrapalharam um pouco o ciclo de desenvolvimento, que naturalmente o tempo acabou “colocando as coisas no seu devido lugar”.

Isso posto ...

O gráfico demonstra números incontestáveis:

·         Em apenas 1 (um) dos últimos 6 anos eleitorais o reajuste dos planos de saúde foi “alguma coisa compatível” com a inflação da saúde suplementar do ano anterior;

·         Nos demais, por “estranha coincidência”, o reajuste foi inferior;

·         Porque aumentar o preço do plano de saúde em ano eleitoral não é o que a gente pode considerar como uma boa estratégia de campanha, não é verdade ?

Vamos lembrar:

·         Os reajustes de planos de saúde devem ... deveriam ... prioritariamente, estarem baseados na variação da sinistralidade ... do custo assistencial ... daquilo que a operadora gasta para prestar assistência aos beneficiários;

·         Isso está representado nas barras azuis do gráfico;

·         Então, se em 2005 esta variação foi de 14,2 %, é de se esperar que o reajuste dos planos em 2006 seja próximo disso;

·         Mas não foi – era um ano eleitoral e o reajuste foi bem menor: 8,9 %.

É claro que este indicador de variação de sinistralidade da barra azul está misturando “um monte de coisas”:

·         Planos coletivos com planos individuais, que têm fatores de sinistralidade diferentes;

·         Planos de operadoras do tipo autogestão, filantrópicas, seguradoras, medicinas de grupo, cooperativas médicas, que têm fatores de sinistralidade diferentes;

·         Planos de empresas que têm fins lucrativos com o de empresas que não têm ... fatores de sinistralidades diferentes;

·         Mas como indicador geral de variação de sinistralidade é difícil justificar tamanha diferença, por mais diversos e criteriosos os parâmetros de cálculo do reajuste;

·         Evidentemente existe em ano eleitoral uma preocupação maior com o impacto que o reajuste causa na opinião pública !

E, vamos combinar, seria muito estranho se fosse diferente ... é claro que o assunto não poderia “ficar blindado” em relação “às leis que regem a política”.

 

 

O que se coloca sobre a mesa para discutir é o quanto esta definição de reajuste de planos individuais não acaba justamente deixando o produto “plano de saúde individual” cada vez pior em relação ao que o cliente deseja / necessita.

O índice de 5,11 % de reajuste em 2026 só é maior do que a “inflação oficial” de 2025, que está longe de representar a variação de custos que ocorre na área da saúde ... a inflação da saúde:

·         É menor do que a variação média dos custos assistenciais das operadoras de planos de saúde;

·         É menor do que a variação média dos custos totais das operadoras;

·         E é menor até do que a variação média da receita de contraprestação das operadoras.

A barra azul do gráfico demonstra que é menor inclusive do que a variação do orçamento do SUS, ou seja, o SUS reajustou mais o seu orçamento em 2025 do que as operadoras terão o direito de reajustar seus planos individuais em 2026 !

Analisando todos os indicadores fica bem claro “para quem não é do ramo” que a inflação da saúde é muito diferente da inflação oficial.

É interessantíssimo citar que quando a ANS define em normativas que os contratos entre operadoras de planos de saúde e serviços de saúde que não tiverem reajustes negociados devem ser reajustados pelo menos pelo IPCA (inflação oficial normal).

Ou seja, se não for negociado reajuste, este reajuste preconizado pela ANS é o mínimo do mínimo do mínimo para compensar uma parcela da inflação real de um período !

 

 

E se considerarmos o aumento do orçamento do SUS para 2026 a diferença é “abissal” !

·         O próprio governo se prepara para gastar em 2026 16 % a mais do que gastou no SUS em 2025;

·         Mas as operadoras terão que trabalhar com um aumento de receita de apenas 5,11 % !!

Fala sério: tem coisa com mais viés político do que isso:

·         Para o SUS um reajuste orçamentário de 16,3 % para tentar acelerar um pouco as filas no ano eleitoral, e mitigar eventuais críticas “à ineficiência do governo na gestão do SUS”;

·         Para as operadoras, nos planos individuais, apenas 5,11 %, para mitigar eventuais críticas de favorecimento do governo para as operadoras.

Existe o viés de que o orçamento público sempre acaba não sendo totalmente consumido:

·         A máquina governamental tem dificuldade para realizar os seus orçamentos;

·         Isso é histórico no Brasil, e no SUS não é diferente;

·         Particularmente já atuei em projetos na área do governo, em gestão de contratos, e conheço como ninguém as dificuldades que a máquina governamental tem para gastar o dinheiro que está reservado no orçamento;

·         É “hilario”: uma dificuldade enorme para conseguir aprovar o orçamento justificando a necessidade ... e depois uma dificuldade enorme para conseguir gastar e não conseguindo atender a necessidade ... “ninguém merece” !

Mas mesmo com esse viés ... mesmo o governo não gastando a mais 16,3 % em 2026 ... o que ele gastar no SUS acabará sendo proporcionalmente muito mais do que os 5,11 % que as operadoras terão direito nos planos individuais !

 

 

Quando, ao invés de considerarmos apenas a variação de um ano, consideramos a variação entre 2019 e 2025 fica bem clara a dificuldade de operar planos individuais de saúde no Brasil:

·         O gráfico simula a projeção de R$ 1,00 em 2001, aplicando os reajustes até 2025;

·         Enquanto o R$ 1,00 se tornaria R$ 4,07 pela Inflação Oficial, o R$ 1,00 se tornaria R$ 8,44 pelos reajustes dos planos individuais da ANS, dando a impressão de que as operadoras deveriam comemorar os reajustes da ANS, não é verdade ?

·         Mas quando pegamos o mesmo R$ 1,00 e aplicamos as variações de custos assistenciais, ou dos custos totais, ou da receita de contraprestação captada das operadoras, este R$ 1,00 se torna algo em torno de que R$ 15,50, ou seja, quase o dobro do índice acumulado de reajuste da ANS;

·         Até se aplicarmos o R$ 1,00 no índice acumulado de evolução do “orçamento político” do SUS chegamos a R$ 9,68 ... maior que o índice da ANS ... e nesse caso, esta diferença foi reduzida porque tivemos “um apagão político” no orçamento do SUS durante a pandemia, lembra ?

Com todos os vieses que existem em todos estes números, que conhecemos bem, não dá para não concluir que o reajuste dos planos individuais é absolutamente incompatível com o necessário para manter a qualidade dos planos:

·         A questão é bem simples;

·         Se a gente tem “o mesmo dinheiro” e o preço da carne aumenta, ou a gente come menos carne, ou substitui o coxão mole pelo acém ... se é que me entende !

·         As operadoras não têm muita escolha em não fazer isso.

Tenho a oportunidade de atuar no mercado há anos em alguns projetos de redimensionamento de redes de operadoras ... redes próprias e redes credenciadas:

·         Sei que acém também mata a fome ... acém também faz “algumas comidas saborosas”;

·         Mas também sei que o cliente não gosta de pagar por pratos que só tenham acém ... nem de pagar por um prato que no cardápio consta coxão mole e venha com acém;

·         Quando voce quer um filé a parmegiana e quer pagar por ele, será muito improvável que consiga saborear um bom filé se a carne utilizada for acém;

·         O cliente do plano individual de saúde gostaria que comer no “Bom Prato” se fosse uma opção e não uma necessidade ... não se for a única alternativa ... se é que me entende também !!

Tem cliente de plano individual que só pode comer no Bom Prato, e tem cliente de plano individual que pode pagar pelo Filé a Parmegiana ... se o reajuste do plano individual é para todos os planos e todos os clientes, não dá para cobrir os custos do “prato feito e do parmegiana” simultaneamente ... isso não é “meio lógico” ?

A atual dinâmica de reajuste dos planos coletivos, mesclada com a necessidade política, ou deve ser totalmente repensada, ou cada vez menos pessoas terão menos acesso aos planos de saúde individuais, se valendo da alternativa dos cartões de descontos e, nos momentos de maior necessidade, acabar contando com o SUS ... o tão criticado SUS !

Necessitando de assessoria especializada em

·         Gestão de Sinistralidade de Planos de Saíde consultar  http://www.escepti.com.br/Ass/PSF

·         Gestão de Precificação de Credenciados de Operadoras consultar  http://www.escepti.com.br/Ass/POP 

ou      contato@escepti.com.br

 

Sobre o autor Enio Jorge Salu

CEO da Escepti Consultoria e Treinamento

Histórico Acadêmico

·  Formado em Tecnologia da Informação pela UNESP – Universidade do Estado de São Paulo

·  Pós-graduação em Administração de Serviços de Saúde pela USP – Universidade de São Paulo

·  Especializações em Administração Hospitalar, Epidemiologia Hospitalar e Economia e Custos em Saúde pela FGV – Fundação Getúlio Vargas

·  Professor em Turmas de Pós-graduação na Faculdade Albert Einstein, Fundação Getúlio Vargas, FIA/USP, FUNDACE-FUNPEC/USP, Centro Universitário São Camilo, SENAC, CEEN/PUC-GO e Impacta

·  Coordenador Adjunto do Curso de Pós-graduação em Administração Hospitalar da Fundação Unimed e do MBA de Gestão do Faturamento e Auditoria de Contas do HCx da Faculdade de Medicina da USP

Histórico Profissional

·  Pesquisador Associado e Membro do Comitê Assessor do GVSaúde – Centro de Estudos em Planejamento e Gestão de Saúde da EAESP da Fundação Getúlio Vargas

·  Membro Efetivo da Federação Brasileira de Administradores Hospitalares

·  CIO do Hospital Sírio Libanês, Diretor Comercial e de Saúde Suplementar do InCor / Fundação Zerbini, Gestor da Saúde Suplementar da Fundação Faculdade de Medicina / Complexo HCFMUSP, e Superintendente da Furukawa

·  Diretor no Conselho de Administração da ASSESPRO-SP – Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação

·  Membro do Comitê Assessor do CATI (Congresso Anual de Tecnologia da Informação) do Centro de Tecnologia de Informação Aplicada da Fundação Getúlio Vargas

·  Associado NCMA – National Contract Management Association

·  Associado SBIS – Sociedade Brasileira de Informática em Saúde

·  Autor de 12 livros pela Editora Manole, Editora Atheneu / FGV e Edições Próprias

·  Gerente de mais de 200 projetos em operadoras de planos de saúde, hospitais, clínicas, centros de diagnósticos, secretarias de saúde e empresas fornecedoras de produtos e serviços para a área da saúde e outros segmentos de mercado