Gastos com Óbitos na Saúde Agravam o Desequilíbrio do Financiamento
0502 – 10/10/2026
Ref.: Consultoria Especializada, Cursos Profissionalizantes em Gestão da Saúde, e Geografia Econômica da Saúde no Brasil
Sistemas de financiamento exigem mudança estrutural de planejamento da saúde
(*) todos os gráficos e ilustrações são partes integrantes do Estudo Geografia Econômica da Saúde no Brasil e do material didático do Programa Cursos Profissionalizantes em Gestão da Saúde, e das consultorias da Escepti
Utilizar dados do SUS para desenvolver o tema traz a vantagem de lidar com valores de repasses e precificação praticamente sem reajustes, e com amostra populacional que não carrega vieses de regionalização específica, ou faixa etária específica, mas o “pano de fundo” do tema adere 100 % também para a saúde suplementar
O gráfico superior demonstra a evolução do número de óbitos em internações, por 1.000 internações:
· Tínhamos 13,4 óbitos em internações, por 1.000 internações, em 2019 nas internações eletivas. A taxa evidentemente cresceu durante a pandemia, mas no pós pandemia nem mesmo retornou a nível inferior de 2019, com 13,6 óbitos em internações eletivas, para cada 1.000 internações eletivas;
· Com característica semelhante, tínhamos 51,4 óbitos em internações de emergência, por 1.000 internações de emergência em 2019, que também se elevou durante a pandemia, retrocedeu no pós pandemia, mas em 2025 ainda maior que a de 2019, com 54,9 óbitos em internações de emergência para cada 1.000 internações de emergência.
Se engana, e muito, quem pensa que somente os profissionais assistenciais ... médicos, enfermeiros, fisios, fonos ... ficam frustrados e emocionalmente abatidos quando perdem um paciente para o óbito:
· Não sou profissional assistencial, passei a maior parte da minha vida profissional em atividades de gestão, e senti muito de perto a frustração ... experimentei estar diversas vezes em uma unidade de internação ... próximo de centro cirúrgico ... em uma UTI ... e sentir o que é vivenciar o clima que permeia o evento óbito;
· Evidentemente nunca tive a carga do profissional assistencial que tem vocação para curar doentes, em determinadas situações não consegue perdendo o paciente para o óbito, e muitas vezes se culpa que poderia ter feito algo diferente ... quase 100 % das vezes uma culpa que não faz o menor sentido !
Mas existe um outro aspecto danoso, que não é mais danoso que a extinção da vida de uma pessoa, mas é danoso para o contexto do sistema de financiamento da saúde:
· Não tendo recurso suficiente, nem no SUS nem na saúde suplementar, para fazer tudo que gostaríamos de fazer para tratar os pacientes, quando empenhamos recurso para tratar e não conseguimos, com o paciente indo a óbito, o sistema de financiamento é acometido de 2 danos adicionais;
· Primeiro: o dinheiro empenhado faz falta para o tratamento de outra pessoa que está na fila de atendimento e pode ir a óbito antes de ter acesso ao recurso de saúde que necessita. É uma espécie de cadeia viciosa, maligna para a gestão dos recursos financeiros da saúde;
· Segundo: o ser humano que deixou a vida, deixa de contribuir para o sistema de financiamento. Se é beneficiário de plano de saúde, é um cliente a menos, e se é beneficiário do SUS também, porque enquanto cada um de nós vive contribui com impostos que financiam o sistema de saúde público ... tudo que a gente faz está associado a uma movimentação financeira, que é tributado de alguma forma ... e esse tributo financia o SUS.
O gráfico de baixo demonstra algo que poucas pessoas, mesmo gestores da saúde, têm noção exata:
· A linha azul demonstra o ticket médio de repasse do governo federal para internações eletivas, ou seja, o quanto o governo empenha em média por internação eletiva no SUS;
· A linha vermelha, o ticket médio das internações de emergência;
· As internações de emergência ... as que são realmente de emergência e não as “emergenciadas” que são emergências “faz de conta” se é que me entende ... costumam consumir menos recursos porque geralmente acabam servindo apenas para tirar o paciente de uma situação de risco de vida, e não para tratar o paciente, que retorna ao sistema depois quase sempre de forma eletiva para isso;
· E infelizmente as internações de emergência ... as realmente de emergência ... têm uma probabilidade muito maior de levar o paciente a óbito e, geralmente, nessas situações ele fica menos tempo internado ... e consome menos recursos ... e o ticket médio da internação nesse caso é menor.
Se juntarmos as informações dos dois gráficos:
· O empenho médio de recurso para financiar internações de emergência é menor;
· Mas a frequência de óbitos em internações de emergência é muito maior;
· E esse recurso empenhado é extremamente danoso para o sistema de financiamento porque não serviu para curar o paciente ... e vai fazer falta para fazer a fila andar;
· A fila não andando vai agravar o estado dos que estão na fila ... aumentando a taxa de internação de emergência;
· Que vai contribuir para a elevada taxa de óbitos em internação;
· Acho que assim “dá para perceber bem” o ciclo vicioso ?
Isso acontece no sistema de financiamento público e no privado !
Estamos em uma armadilha de planejamento, buscando mais recursos para gastar mais quando deveríamos, também, estar desenvolvendo mais ações para gastar menos por internação e reduzir a taxa de óbitos nas internações !!

Nosso problema com isso é que o planejamento da saúde, tanto pública como a saúde suplementar, não está efetivamente se modificando para quebrar esse círculo vicioso:
· A única forma de reduzir o emergenciamento é com ações de prevenção e promoção da saúde, no âmbito da saúde, e com ações de educação de qualidade de vida, educação no trânsito, e outras fora do âmbito da saúde;
· Ações efetivas e não “da boca pra fora” ... atenção básica da saúde, atenção primária da saúde, e infraestrutura e apoio real para melhorar a qualidade de vida das pessoas.
Mas todos os indicadores demonstram “uma irritante” tendência de “mesmice” no planejamento ... como esses outros do SUS.
Os de cima demonstram:
· A evolução da quantidade de BPAs, que são as contas que os serviços de saúde apresentam para o SUS para receberem seu repasse financeiro referente aos atendimentos ambulatoriais;
· A evolução da quantidade de AIHs, que são as contas que os serviços de saúde apresentam para o SUS para receberem seu repasse financeiro referente às internações;
· Os dois gráficos demonstram evolução, mas para melhorarmos as condições da população de modo a evitar a situação de agravamento que gera o emergenciamento, a evolução das BPAs deveria ser muito maior que a das AIHs, porque ações de prevenção como exames de diagnóstico são repassados por BPAs.
Além da quantidade de BPAs não estar crescendo mais que a das AIHs, o gráfico de baixo demonstra que isso também não ocorre com o valor repassado:
· Proporcionalmente em 2025 tivemos um aumento de repasses de internações em relação aos atendimentos ambulatoriais quando comparamos com 2019;
· Se o planejamento de prevenção e promoção da saúde fosse mais efetivo deveríamos estar vendo uma inversão da evolução da proporcionalidade.
“De novo”, se engana quem pensa que isso é privilégio do SUS:
· Na saúde suplementar, ao incrementar fatores moderadores na baixa complexidade, em que o beneficiário tem que pagar uma parte do exame, ocorre o mesmo;
· A coparticipação é importante para evitar desperdício ... coparticipação, franquia, limite de reembolso, são avanços do sistema de financiamento ... são remédios contra o desperdício;
· Mas como acontece com os medicamentos a “dose elevada” pode se transformar em veneno ... ter efeito inverso ... e em muitas situações isso ocorre na saúde suplementar;
· É só pensar em beneficiários de planos de saúde que devem fazer exames periódicos porque têm doença pré-existente, como diabetes por exemplo, e deixam de fazer porque têm que pagar uma parcela do preço da consulta e do exame ! Seu estado de saúde vai se agravando, e acaba “virando um emergenciado” e tende a contribuir significativamente para aumentar o indicador de óbitos em internações !

O gráfico de cima demonstra claramente o dano do cenário que o planejamento não está atuando de forma adequada:
· Enquanto a quantidade de AIHs (o volume de internações) elevou 18,5 % entre 2019 e 2025, o valor do repasse das AIHs (o dinheiro empenhado) elevou 63,0 %, ou seja, o ticket médio das AIHs, o valor médio das internações, ficou maior, porque os pacientes estão consumindo mais recursos;
· Por uma série de razões que não somente a taxa de óbitos em internação, é bom que se diga;
· Mas que a piora de estado do paciente é uma das principais razões, os números demonstram claramente ... só não vê quem não quer !
E, também no gráfico de cima, no caso das BPAs, enquanto a quantidade elevou 23,2 % no mesmo período, o valor do repasse elevou 44 %:
· Como a proporção entre a elevação do valor das BPAs é inferior a elevação do valor das internações, o fato ainda sinaliza um dano maior quando tratamos da necessidade de prevenção;
· Os procedimentos ambulatoriais de maior valor, principalmente os exames de média e alta complexidades, são muito mais caros do que as consultas, exames laboratoriais e de radiologia geral simples;
· Uma parcela da não elevação do ticket médio ambulatorial é a inadequação de oferta desses exames de maior complexidade;
· Na verdade nem precisaríamos ver esse gráfico para constatar isso ... basta observar as filas para realização desses exames mais caros, não é verdade ?
· E na saúde suplementar sabemos que as autorizações para realização desses exames é cada vez mais demorada na maioria dos casos ... também não é verdade ?
O gráfico de baixo sempre deixa os gestores da saúde pública muito chateados:
· Ele demonstra e evolução do custo per capita dos repasses de internação e ambulatorial;
· O quanto o governo federal repassa por habitante, por ano;
· Demonstra evolução ... tivemos “um apagão” na pandemia, mas comparando 2019 já a partir de 2023, o rumo foi retomado ... não é correto deixar de reconhecer que existe aumento nos repasses mesmo com a tabela SIGTAP congelada;
· A questão é que o valor é muito pequeno quando analisamos as contas dos governos federal, estaduais e municipais;
· A questão é quando comparamos o que se gasta com saúde e com outras coisas ... como fundo partidário, emendas parlamentares e outros gastos absurdos com coisas muito menos importantes do que a saúde e a qualidade de vida dos seres humanos que habitam nosso país;
· Mesmo na saúde suplementar, as pessoas reclamam do preço do plano de saúde, mas também é baixo se comparado com o que as pessoas gastam com apostas, bens de consumo supérfluos, e produtos “de marca”.
Evidentemente os governos federal, estaduais e municipais não gastam apenas isso com a saúde das pessoas ... o ticket médio per capita é maior ... isso se refere apenas ao repasse relacionado aos atendimentos ... não está aí o gasto com a compra de vacinas e outras providencias que o SUS é obrigado.
Mas é justamente o repasse que está no cerne do ciclo vicioso ... e é muito pequeno ... e poderia ser muito maior sem que isso fosse “sangrar” mais as contas públicas do que outros gastos menos vitais para a vida da população !

Na verdade não vemos nenhuma iniciativa de proposta de política pública que esteja sendo realmente discutida para acabar com o ciclo vicioso do emergenciamento / óbito em internação.
Temos que pedir a Deus que apareça alguém no âmbito da política que realmente entenda o cenário e proponha algo factível, ao invés de “pregar” que vai construir mais hospitais, que vai aumentar o repasse, que vai comprar equipamento ... isso é importante mas não é suficiente, não é eficaz, se não estiver inserida em um planejamento de estratégia de saúde.
Essa “pregação” só tende a “eternizar” o cenário que vemos nos gráficos acima:
· Emergenciamentos evoluindo, ou se mantendo;
· E proporção de óbitos em internação evoluindo, ou se mantendo também !
E também não vemos ações efetivas na saúde suplementar para isso ... a gente vai pagando mais caro para cobrir os custos de procedimentos de maior complexidade, e menos para desenvolver programas efetivos de promoção e prevenção que reduzam a necessidade de gastar com esses eventos de maior custo.
Necessitando informações ou estudos macroeconômicos sobre o mercado da saúde suplementar consulte a página Geografia Econômica da Saúde no Brasil www.gesb.net.br , ou contato@escepti.com.br
Necessitando capacitação no tema, consulte cursos da página www.cpgs.net.br , ou contato@escepti.com.br
Necessitando de assessoria especializada em Planejamento Estratégico para Empresas na Área da Saúde, incluindo estudos macroeconômicos, análise de enquadramento e reposicionamento da instituição no mercado, consulte a página www.escepti.com.br/Ass/PLA , ou contato@escepti.com.br
Sobre o autor Enio Jorge Salu
CEO da Escepti Consultoria e Treinamento
Histórico Acadêmico
· Formado em Tecnologia da Informação pela UNESP – Universidade do Estado de São Paulo
· Pós-graduação em Administração de Serviços de Saúde pela USP – Universidade de São Paulo
· Especializações em Administração Hospitalar, Epidemiologia Hospitalar e Economia e Custos em Saúde pela FGV – Fundação Getúlio Vargas
· Professor em Turmas de Pós-graduação na Faculdade Albert Einstein, Fundação Getúlio Vargas, HCX da Faculdade de Medicina da USP, FIA/USP, FUNDACE-FUNPEC/USP, Centro Universitário São Camilo, SENAC, CEEN/PUC-GO e Impacta
Histórico Profissional
· CIO do Hospital Sírio Libanês, Diretor Comercial e de Saúde Suplementar do InCor / Fundação Zerbini, Gestor da Saúde Suplementar da Fundação Faculdade de Medicina / Complexo HCFMUSP, e Superintendente da Furukawa Industrial
· Pesquisador Associado e Membro do Comitê Assessor do GVSaúde – Centro de Estudos em Planejamento e Gestão de Saúde da EAESP da Fundação Getúlio Vargas
· Membro Efetivo da Federação Brasileira de Administradores Hospitalares
· Diretor no Conselho de Administração da ASSESPRO-SP – Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação
· Membro do Comitê Assessor do CATI (Congresso Anual de Tecnologia da Informação) do Centro de Tecnologia de Informação Aplicada da Fundação Getúlio Vargas
· Associado NCMA – National Contract Management Association
· Associado SBIS – Sociedade Brasileira de Informática em Saúde
· Autor dos livros Administração Hospitalar no Brasil – Editora Manole, Gestão Comercial Hospitalar – Editora Atheneu / FGV, Gestão do Faturamento e Auditoria de Contas Hospitalares – Editora Atheneu / Fundação Getúlio Vargas, e mais 9 livros de gestão em saúde de edição própria disponíveis para download em páginas da Internet
· Gerente de mais de 200 projetos em operadoras de planos de saúde, hospitais, clínicas, centros de diagnósticos, secretarias de saúde e empresas fornecedoras de produtos e serviços para a área da saúde e outros segmentos de mercado